Crescem queixas de golpes aplicados por agências de modelo

Recrutamento de jovens em ruas e shoppings está se tornando comum na cidade

Por Deborah Neiva

Empresas de agenciamento de modelos estão aplicando um golpe que vem se tornando frequente em Curitiba. O Procon já conta 61 reclamações e 32 processos no Juizado Especial da capital paranaense, essas agências abordam adolescentes e crianças principalmente acompanhadas dos pais em ruas e shoppings da cidade com a oferta de trabalhos como modelo. O objetivo dessas empresas é lucrar em cima da venda de cursos e books  com a promessa de que haverá trabalho, obrigando o consumidor a pagar valores entre R$2 e 3 mil e em grande parte das vezes não cumprindo com o compromisso.

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Fernanda Smanhoto, 20 anos, é uma das vítimas do golpe. Ela já se envolveu com três agências que prometeram a ela tornar a profissão realidade, mas uma delas, em Curitiba, levou R$3 mil de sua família e deu fim a esse sonho. “Falaram no Facebook que eu tinha perfil para a coisa e eu acreditei. Então uma mulher me pediu pra tirar a blusa pra ela no Skype, porque a primeira campanha seria para uma loja de biquínis. Eu tirei. Depois minha mãe deu uma bolada para a agência e a mulher no dia seguinte desapareceu!”. Fernanda conta que não achou mais a tal “caça-talentos”, como a própria se titulava, e que alertou a polícia sobre o acontecido, mas a investigação não obteve resultados.

Diretora adjunta do Procon, Alana Borba explica que entre as reclamações contra essas empresas, estão o não cumprimento de contrato, cobrança indevida, propaganda enganosa e recusa injustificada em prestar serviço. “É direito do consumidor vir até o Procon, tanto para fazer uma consulta em relação a idoneidade da empresa, quanto para registrar uma reclamação”. Ela ainda afirma que, em caso de dúvida sobre o contrato, o Procon se dispõe a explicar as cláusulas para evitar que a população se sinta lesada.

Casos de sucesso inspiram jovens a se agenciarem

A vontade de trabalhar no universo da moda faz parte da vida de milhares de adolescentes no país, considerando que duas das modelos mais bem pagas do mundo são brasileiras:  Gisele Bundchen e Adriana Lima. A primeira foi selecionada por uma agência enquanto passeava com seus pais no shopping e, a partir de então, tornou-se uma supermodelo de referência internacional. O exemplo inspira outros jovens que almejam a profissão e influenciados pela história da celebridade entregam-se a empresas que iludem seus clientes com o sonho de uma carreira fashion.

Circunstâncias iguais à de Gisele, no entanto, são difíceis de se repetirem. Para a funcionária de uma agência estabelecida em Curitiba há 20 anos, Eveline Santos, são raros os casos de abordagem na rua, pois o mais comum é que os interessados se cadastrem no site e enviem fotos para a avaliação de perfil: “Se nós já temos dez crianças loiras de olhos azuis, não há por quê ter onze, senão algumas delas irão ter muita dificuldade para encontrar trabalho”. Se a pessoa tiver o perfil procurado, é feita uma avaliação pessoal para averiguar a desenvoltura na câmera e aí então assinar o contrato. Para ela a melhor forma de se prevenir é pesquisar muito bem as agências antes de se decidir.

Clarissa Ramirez, mãe de duas modelos, demorou para achar uma agência que inspirasse confiança, pois as primeiras que ela encontrou exigiam valores muito altos para o material. “Percebi que muitas delas chamavam todas as pessoas que encontravam na rua e se preocupavam demais em vender o material fotográfico e um curso de passarela por um valor muito alto. Na minha atual agência eles têm uma real preocupação com a imagem dos meus filhos”. Clarissa ainda relata que já viu casos onde a família desembolsou grande quantidade de dinheiro para agenciar o filho e nunca obteve o retorno.

O Fotógrafo profissional e ex modelo, Paulo Chiquitti, conta que as agências mais conhecidas por abordar pessoas na rua não têm contatos com as grandes empresas publicitárias, logo é difícil que as modelos que se cadastram lá encontrem trabalho. “Essas empresas não têm a network e nem se interessam em fazê-la, pois o único objetivo delas é ganhar dinheiro em cima de um material fotográfico, que na maioria das vezes não poderá ser utilizado como portfólio pois tem baixa qualidade”.

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