Antes velharia, disco de vinil recupera espaço

O popular “bolachão” tem aumento nas vendas

Por Yuri Braule

O ato de colocar uma agulha no disco, para ouvir música como antigamente, está ganhando cada vez mais adeptos. O disco de vinil, que tinha vendas reduzidas até cinco anos, agora está conquistando um mercado de fãs, principalmente os da “moda vintage”, cultura de recuperação de estilos de décadas passadas.

Segundo dados da Nielsen, empresa norte-americana de pesquisas voltada para as mídias, só nos Estados Unidos foram vendidos 5,6 milhões de Long Plays (LPs) no primeiro semestre de 2015, um aumento de 38% em relação ao mesmo período do ano passado, isso também significa um crescimento pelo quinto ano consecutivo.

Vendedor desde 2012,Vinicius Franch, 32, viu a venda de seus discos crescer desde então, principalmente entre os jovens. Para ele, o vinil voltou à ativa por ser uma mídia física. “As pessoas falam muito que é mais interessante o disco de vinil do que outras mídias como mp3 ou cd por causa do tamanho dele, do aspecto visual, de você poder pegá-lo, manuseá-lo com mais segurança. Isso contrasta com o mp3, que é uma coisa que você não vê, é só um código, você só mexe com ele dentro de algumas pastas no computador”.

Tal sucesso tem feito os “bolachões” despertarem o olhar dos artistas da nova geração, fazendo com que o top 10 de vendas de LPs nos Estados Unidos contenha oito discos produzidos nos últimos cinco anos, com os quatro discos mais vendidos sendo constituídos de produções recentes, com nomes como Taylor Swift, líder de vendas; Arctic Monkeys e Hozier.

Artista de Curitiba planeja lançar LP

“O vinil ocupa um nicho específico. Ele é tipo um artigo de luxo do trabalho musical. Então, dentro daquela perspectiva de convergência, por que não estar em todas as mídias? Se o vinil hoje desperta interesse de bastante gente, por que não fazer?”, indaga Téo Ruiz, cantor e compositor, que pretende lançar também em LP o seu próximo trabalho junto à baterista e percussionista Estrela Leminski.

Colecionador principalmente de discos de rock e metal, Giovanni Vicentin, 21, começou a comprar discos há quatro anos, e atualmente possui mais de 200 vinis em seu quarto, que possui um destaque especial para os seus discos do Pink Floyd, Metallica, AC/DC, The Beatles e Yes. “A sensação de tirar o vinil da capa, o cheiro e aquele chiado clássico que só o vinil tem são ótimos! O que mais me motiva é ver como as coisas tinham uma qualidade superior, e eram feitas com carinho antigamente”.

Apesar da “onda do vinil”, Alceu Bortolanza, 54 anos, adota uma postura cautelosa. Vendedor de discos desde 1987, ele conta que as vendas de seus discos aumentaram nos últimos cinco anos, mas não acredita que voltará a ser como antigamente. “Não da forma como as pessoas pensam, que vai voltar o vinil como era nos anos 70, eu acho isso impossível, até porque não se fabrica o aparelho de som, então você vai comprar um vinil para tocar onde? Vai precisar comprar um aparelho importado que custa R$ 10 mil. Então eu acho muito difícil popularizar da forma como era antigamente”.

 
Crescimento nas vendas gera debate entre mídias físicas e digitais

Após o crescimento nas vendas no vinil, criou-se um debate sobre as diferenças entre a música digital e a música analógica.

Para quem prefere a mídia digital, a praticidade é o fator preponderante na hora de ouvir música. O estudante e músico Willians Alves, 19, diz ter problemas com a mídia física. “Eu uso só música digital pelo simples fato de minhas músicas estarem salvas na Nuvem, e eu poder ouvi-las online ou offline. Na física é ruim pelo troca-troca de CDs, de você estar precisando toda hora ter cuidado”.

Para os defensores da mídia física, a questão nostálgica é a principal vantagem. O produtor Ricardo Trento diz que o fã do vinil não está apenas interessado na qualidade do som, mas sim no que o disco representa. “Ele vai comprar um suporte que ele vai olhar a embalagem, a questão estética, o design, a ação da criatividade, as cores, como um suporte, enquanto ele escuta a música ele fica olhando o trabalho do vinil”.

Porém, sonoramente falando, não há grandes diferenças entre as duas mídias, uma vez que a tecnologia diminuiu a vantagem do vinil, segundo o cantor e compositor Teo Ruiz. “As curvas de som no digital são aquelas ‘escadinhas’, e no vinil é aquela onda redondinha, alguns dizem que a escadinha do digital já está tão pequena que nem dá para perceber a diferença na curva do som, ou seja, o som já está muito próximo”.

Mas, para Ruiz, a competição é desnecessária, pois, nos dias de hoje, podemos possuir tanto a mídia física quanto a digital. “O mesmo cara que tem o iPod pode ter o vinil também, não existe mais uma concorrência do tipo ‘ou você tem um iPod ou você tem uma vitrola’, hoje em dia, nessa perspectiva de convergência, você pode ter tudo.”

 

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