Aposentados voltam ao mercado de trabalho

Necessidade financeira e tentativa de realização pessoal levam idosos aposentados à reatividade no trabalho. 

Por Raphaella Piovezan e Stephanie Abdalla | Foto: Yasmin Graeml

 

A desaposentação, situação em que idosos voltam a trabalhar depois da aposentadoria, está cada vez mais comum no Brasil. Segundo pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), mais de um terço dos aposentados (33,9%) continua trabalhando. Entre os motivos principais para essa decisão, estão a complementação de renda, a necessidade de se sentir útil e a busca pela realização de sonhos.

Do total de desaposentados, 46,9% tiveram que permanecer no mercado por necessidades financeiras. Esse é o caso do coordenador de manutenção da empresa Conceberas, Dorival Artigas, que se manteve no mesmo cargo para cobrir as despesas da família. “A condição financeira [na época em que me aposentei] não permitia, e não permite até hoje a sobrevivência somente da aposentadoria”.

Para o economista Daniel Poit, a razão de muitas pessoas estarem na mesma situação de Dorival é histórica. “O Brasil, desde sempre, paga salários baixos aos trabalhadores. Muitas pessoas chegam perto da idade de se aposentar sem ter conseguido arrecadar qualquer tipo de poupança”.

Poit também conta que a desaposentadoria aumentou por causa da crise econômica, além do fato de que o aumento da renda dessas pessoas não acompanha o crescimento dos impostos. “No Brasil não há nenhuma seletividade quando se trata de aumento de tributos e isso acaba comprometendo ainda mais o poder aquisitivo do benefício da aposentadoria”.

 

Busca por realização pessoal causa desaposentação

A desaposentação também está ligada à necessidade que muitos idosos têm em se sentirem úteis. A psicóloga Rovânia Sayonara explica que a saúde e o prazer de se sentir produtivo faz parte do bem-estar de muitos aposentados. “Envelhecemos em idade cronológica, mas com vitalidade. Temos muita vontade de continuar sendo independentes, capazes e ativos”.

A ex-professora de educação física e também ex-enfermeira Zelinda Just, 71 anos, é uma dessas pessoas. Depois de 28 anos de carreira dando aulas, se aposentou, porém não conseguiu se acostumar a ficar em casa e decidiu começar a faculdade de enfermagem. “Eu me sentia útil, tinha boa saúde, tinha pique, então pensava ‘Eu não posso ficar em casa’. Por isso resolvi fazer outro curso”.

Hoje, Zelinda é também aposentada como enfermeira e fala que se sente realizada por ter continuado trabalhando. “Conheci uma nova profissão que achava linda e nunca tinha pensado em seguir. Quando voltei a faculdade, acabei convivendo com pessoas mais novas e essa foi uma experiência muito boa, até parece que você fica mais jovem”.

Um último motivo para a desaposentação, apontado pela pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), é a tentativa de realização de um sonho não realizado durante a juventude. Foi o caso de Joaninha Carpineli, 86, que se aposentou em 1990 como auxiliar de dentista e, oito anos depois, começou a dar aulas de piano para os vizinhos do prédio em que morava. “Sempre fui apaixonada por música e meu sonho era ser concertista e professora de piano, mas meu pai não tinha dinheiro para comprar um piano e depois de casada eu tive que apostar em algo que pagasse as contas”

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