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Apps vão de inimigos a ajudantes na hora do vestibular
Atividades online em grupo facilitam a fixação de conteúdo

Por Bruno Rigoni Talevi

Sem abandonar os métodos tradicionais de estudo, os vestibulandos pulam na onda crescente dos smartphones e aplicativos para deixar o vestibular mais fácil de enfrentar. A fim de tornar a fixação de conteúdo mais simples, intuitiva, e menos maçante, diversos alunos tiram o máximo de aproveitamento do estudo diário com apps em formato de jogos ou em grupos de whatsapp. Essa facilidade de estudar em qualquer lugar é explorada também por aplicativos que tornam o hábito de estudar algo mais próximo do mundo dos jovens, como jogos ou séries.

Por exemplo: esse ano o MEC (ministério da educação) disponibilizou suas próprias plataformas de estudo: MECflix, que, assim como seu primo distante, possui diversas horas de vídeos focados na prova; e Hora do ENEM, que monta cronogramas baseados no curso planejado e na disponibilidade de tempo – com mais de 9,2 milhões de inscritos, o enem desse ano será o primeiro a utilizar um aplicativo pra ajudar nos estudos e outro pra se organizar com a prova, data, horário, etc. A Globo pegou o embalo, lançou seu próprio aplicativo, “G1 Enem”, com formato de perguntas e respostas, tornando o estudo mais dinâmico e corriqueiro, podendo ser jogado a qualquer hora, e sem sentir o peso de ficar horas lendo uma apostila.

A psicóloga Salete Clivatti alega que, por estarem terem uma certa facilidade e estarem rodeados de tecnologia a todo momento, essa forma de fixação nos jovens é certamente eficaz pela velocidade e facilidade de conseguir a informação, otimizando o tempo. “É muito mais rápido você procurar no Google, por exemplo, quem era Cezánne, do que ir atrás de um livro de história da arte. E para um aluno no vestibular o tempo é um fator quase tão precioso quanto o ar”. Mas ela ressalva: a internet, por vezes, é superficial; o livro possui profundidade inegável.

Nesse mesmo tópico, é semelhante o uso de aplicativos que aproximam a interação entre professor e aluno, poupando tempo crucial que seria gasto em filas enormes num cursinho e facilitando a conversa, como os de troca de mensagem. “É extremamente frustrante chegar lá na frente e ficar esperando só para descobrir que você errou, por exemplo, na matemática básica”, argumenta a vestibulanda de medicina, Eduarda Coser. Nesse tipo de programa as resoluções são feitas em detalhes, explicadas pelos próprios professores, ajudando a fixar, por exemplo, fórmulas de física ou procedimentos de química.

O professor de língua portuguesa, Bruno Kober, afirma que, por ser algo mais pertencente ao mundo dos alunos, esse tipo de conexão é mais atrativa e mais facilitada. “Ela quebra a monotonia da simples teoria, trazendo um elemento importante em sala de aula: dinamicidade. Portanto, aliar o conhecimento formal com a sua visualização e fixação por meio das mais diferentes ferramentas é sempre uma boa solução de integração de conteúdo.” Mas para ele, nada substitui o caderno – a tecnologia ajuda na fixação; mas a base vem dos livros e da sala.

Para a futura caloura de direito, Fernanda Loureiro, o que funciona é conversar sobre o conteúdo, falar paras amigas. “Ajuda a fixar, uma vez que ficar a tarde inteira grifando uma apostila não funciona pra mim”. Eduarda concorda: “É menos maçante, torna o estudo mais dinâmico – os amigos se ajudam!”. Essa maior conexão e facilidade de trocar ideias entre os alunos é uma revolução das ideias do pedagogo Paulo Freire, que nos anos 70 já teorizava sobre novas formas de estudar, tornando os estudos mais práticos e não só um conjunto de repetições de conteúdos que possivelmente nunca serão usados. Para ele, a curiosidade deveria ser estimulada, assim como a crítica, a discussão sobre os assuntos trabalhados em sala. Esse método de retórica é aplicado, por exemplo, na universidade de Harvard, nos EUA; o ambiente de colaboração coloca alunos e professores numa posição semelhante: com ambos abertos a aprender, o processo se torna mais dinâmico.

O perigo de dispersar existe e é presente a todo momento – Eduarda argumenta que, para evitar, desinstalou o Facebook. “Uma coisa leva a outra”. Fernanda concorda: quem quer deve se concentrar, cada um sabe o que faz. Mas o ideal é tirar sempre alguns minutos entre um conteúdo e outro pra não forçar demais o cérebro. A psicóloga reitera: É ideal que se saiba seu limite, porque o cérebro se cansa. Esse extremo estresse e esgotamento constante pode levar a uma síndrome comum nos ultimos tempos: a síndrome de Burnout, que significa literalmente “queima”.

Com esforço, os resultados aparecem em vestibulares e simulados. Eduarda, por exemplo, pulou da milésima posição para a 378 na Faculdade Pequeno Príncipe. Fernanda vai tentar só a UFPR, mas está confiante – está indo bem nos simulados do cursinho e sente que está fixando muito melhor o conteúdo em comparação no ano passado, em que fez o terceirão. “Sair do clima de colégio me fez muito bem. Além de estar mais focada no vestibular, o hábito de trocar ideias sobre as aulas facilita muito as provas no geral. Esse ano vai!”

O crescimento de smartphones toma impulso entre os jovens

Além da óbvia facilidade de mexer com o celular, outro motivo que pode explicar a preferência pelo estudo mais dinâmico é o crescimento de smartphones no Brasil, principalmente na camada mais jovem – que aumentou em 9% sua venda (de 152 milhões para 168).

Pelo crescimento do público jovem também aumentou o interesse por pacotes de dados móveis – o 3G e 4G -, fazendo as operadoras deslocarem o interesse das ligações (que eram a principal fonte de renda até 2009) para a internet no celular; estimulando uma concorrência por quem pode oferecer mais dados ou mais acesso a outros aplicativos. Em pesquisa do IBGE, 54,3% dos lares brasileiros passaram a ter internet em 2014 – neles, 80,4% do acesso era pelo celular, que passou em 2016 o computador como principal meio de acesso. A rede móvel se destaca nesse contexto, fechando o ano de 2015 com 191,8 milhões de acessos. Dos estudantes entrevistados da rede privada, 93,4% consideram o celular um bem indispensável; da rede pública, 74,3% – com destaque para os aplicativos de troca de mensagens.

Nesse mesmo tema, o crescimento segue uma onda global. A Cisco, em seu Visual Networking Index (VNI) Global Mobile Data Traffic Forecast, prevê que o crescimento do tráfego de dados móveis no país aumentará 7 vezes até 2020, atingindo uma taxa de 8,8 exabytes. Em comparação com a atualidade, a circulação de dados é de “apenas” 1,3 exabytes.

Os responsáveis por esse crescimento são consequência da evolução da tecnologia: vídeo móvel, uso de 4G para diferentes fins (a conexão mais rápida permite conversas mais rápidas, downloads instantâneos e conversas por vídeo), com cada vez maior adesão do público – e com ela, a demanda.

Sandra Rúbia da Silva e Camila Rodrigues, pesquisadoras, identificam a mobilidade, a portabilidade, a capacidade de produzir conteúdo imediato, a conexão e a difusão em rede, e acima de tudo a disseminação massiva crescente desse produto como o principal fator de desejo.

O mercado tem voltado seus olhos a esse público com uma enorme demanda por novas tecnologias; seja com pacotes que beneficiam o uso de apps ou com programas de troca de smartphones, as operadoras têm investido continuamente para manter os jovens conectados. Mesmo com velocidade reduzida quando acaba o plano de dados.

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