Bolsa Família não é causa de vitória de Dilma em região do estado do Paraná

Percentual de votos de Dilma no Vale do Ribeira não é acompanhado pela percentagem de famílias da região que recebem o Bolsa Família

Por Caio Liberal e Gabriel Snak

No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), a candidata à reeleição venceu com 51,64% dos votos no cômputo geral. O candidato tucano, por sua vez, conquistou a maioria do eleitorado no sul do país. O estado do Paraná lhe garantiu a vitória com 60,98% dos votos. Porém, a votação em terras paranaenses não foi homogênea.

Dilma foi a mais votada em algumas regiões do Paraná, tais como o Vale do Ribeira e o Centro Expandido, localizado no centro do estado. Ambas de baixos índices socioeconômicos como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tendo o Vale a média de 0,69, a mais baixa do Paraná. Quanto mais distante da taxa 1,00, pior é a qualidade dos indicadores sociais. Curitiba tem a média de 0,856. As estimativas são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no site Territórios da Cidadania do Paraná. O Vale do Ribeira compreende sete municípios no lado paranaense (Doutor Ulysses, Cerro Azul, Rio Branco do Sul, Itaperuçu, Bocaiúva do Sul, Tunas do Paraná e Adrianópolis). De baixa densidade populacional, com 139,89 habitantes por quilômetro quadrado, de acordo com dados do Programa Vale do Ribeira, da Universidade Federal do Paraná, que desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão em áreas socialmente críticas na região.

O pleito eleitoral deste ano foi marcado pela polarização entre as intenções de voto, sobretudo no executivo federal. Calorosos embates abasteciam principalmente as mídias sociais, que esquentaram a disputa pelo Palácio do Planalto e suscitaram acusações de parte à parte, muitas vezes baseadas em clichês que alimentavam o debate político. Um deles, por exemplo, seria associar o voto à candidata reeleita Dilma Rousseff àqueles beneficiados diretamente pelo programa Bolsa Família. Segundo o sociólogo do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Leonildo Souza, do ponto de vista eleitoral, a garantia do emprego e da renda dá sustentação à manutenção de qualquer governo. Para ele, a impressão do Bolsa Família como aliado da candidata Dilma Rousseff é devido à sua envergadura, de caráter universal para os seus assistidos. “É um programa que é pulverizado pelo país inteiro, independente de estado ou prefeitura, oposição ou não”, complementa.

Diante deste cenário, essa reportagem teve por meta investigar se há uma relação de causa e efeito entre o programa Bolsa Família do Governo Federal e os votos à presidente no Vale do Ribeira como um todo, uma vez que reúne os indicadores sociais mais baixos do Paraná. No mapa produzido pelo Jornal Folha de São Paulo, com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a cor vermelha representa a vitória petista, enquanto as manchas azuis correspondem aos municípios onde Aécio teve mais que 50% dos votos válidos. As duas áreas abaixo demarcadas: 1 para o Vale do Ribeira e 2 para o Centro Expandido evidenciam duas localidades no Paraná que compartilham contextos socioeconômicos de pobreza em que a candidatura de Dilma Rousseff saiu vitoriosa.

Tanto o Vale do Ribeira quanto o Centro Expandido são regiões carentes. Para se ter uma ideia, 32,5% é a percentagem de famílias de todos os municípios do Vale do Ribeira que, juntos,  dispõem do Bolsa Família (os dados são de setembro de 2014, disponibilizados pelo Cadastro Único).  Na região, 9551 famílias recebem o benefício, representando 36.551 pessoas o universo total de beneficiados no Vale do Ribeira, ou 38,5% da população em âmbito geral. Doutor Ulysses é o município com a maior proporção de indivíduos e famílias que recebem o auxílio federal: 54,8% e 49%, respectivamente: 3137 pessoas divididas em 851 famílias cadastradas. Itaperuçu, ao contrário, possui a menor percentagem de pessoas que recebem o BF: apenas 28,4% ou 6773 cidadãos para 24,1% na participação das famílias ou 1796 unidades familiares. Via de regra, a proporção de votos em Doutor Ulysses para a então candidata Dilma Rousseff deveria acompanhar essas métricas e ser superior a Itaperuçu.

Entretanto, ao se analisar, em sequência, a vitória de Dilma Rousseff na região, é possível inferir algumas conclusões, como a discrepância entre as intenções de voto em Doutor Ulysses e Itaperuçu, que não segue a tendência apresentada acima. (Veja a tabela e o gráfico)

Reportagem_Bolsa_Familia_2Tabela_Votos_Dilma_Vale_Ribeira

Reportagem_Bolsa_Familia_3Grafico_Votos_Dilma_Vale_Ribeira

No gráfico, a linha que acompanha os dados apresenta certa linearidade. Isso quer dizer que a tendência entre o percentual de famílias agraciadas pelo Bolsa Família e o percentual de votos recebidos por Dilma Rousseff é uniforme tanto para a região do Vale do Ribeira, onde ganhou Dilma, quanto para o estado do Paraná como um todo, onde ganhou Aécio Neves. A comparação que mais chama a atenção é na cidade de Itaperuçu: apesar da vitória petista na região com 64,9% dos votos válidos, apenas 24,1% das famílias da cidade recebe o auxílio. Doutor Ulysses, por sua vez, com 54,8 % de famílias contempladas pelo BF, indica uma intenção de votos na presidente de 60,1%, estando abaixo de Itaperuçu, a cidade menos privilegiada com o programa na região. Caso o Bolsa Família fosse um diferencial na hora de decidir o voto, a barra vermelha, que indica a percentagem de votos de Dilma, estaria seguindo a ordem decrescente da barra verde, que indica o número de famílias que recebem o Bolsa Família.

Para o sociólogo Leonildo Souza, o Bolsa Família é um motivo que leva as pessoas a votar em Dilma, mas não a causa. “Há uma correlação, mas não, necessariamente, uma causalidade”, explica. Segundo ele, outros fatores significativos pesam também na opção pelo voto na petista. “A valorização do salário mínimo, a política de emprego e o crescimento da renda”, elenca. Souza também credita o sucesso do governo no Vale do Ribeira nessas eleições a políticas regionalizadas. “Expansão dos centros de educação superior e programas como o Minha Casa Minha Vida. As políticas que foram localizadas em determinadas regiões pode estar acarretando algum efeito no eleitorado dela”, finaliza.

No Paraná, existem 173 municípios dos 399 (43,4% do estado) com proporção de famílias beneficiadas acima da média estadual do Bolsa Família, que é de apenas 17,3%; nesses Dilma perdeu em 76 (43,9% ). Enfim, não há como afirmar que o Bolsa Família decide voto. Se por um lado, o senso comum apela em creditar às políticas sociais do governo o êxito eleitoral do PT no executivo federal, por outro, o exercício do voto nas regiões mais desprivilegiadas do estado sugere um panorama bem mais complexo do que se pode imaginar.

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