Brasil: Vendas de Natal devem cair após 11 anos

Redução no número de trabalhadores com direito ao 13º salário é principal explicação

Por Luiz Felipe Elias, Guilherme Almeida e Israel Scopel

Pela primeira vez desde 2007, o número de trabalhadores com carteira assinada que receberão o 13º salário apresentará queda em relação ao ano anterior. Com isso, comerciantes de todo país esperam queda nas vendas de Natal, sendo a primeira em 11 anos.

Um estudo feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) neste ano aponta que o número de brasileiros assalariados nos setores públicos e privados que receberão o benefício é de 48,9 milhões, enquanto em 2014 o número era de 49,85 milhões, o que representa uma queda de 1,9%.

Com a queda de beneficiados, a Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) prevê que as vendas de Natal apresentem uma queda de 4,8% em 2015. Como consequência disso, crê-se que haverá menos vagas de emprego temporário, pois a queda de empregos no mercado de trabalho afeta diretamente as vendas natalinas. Como um ciclo, quanto menos gente empregada tende-se que as vendas caiam e, sendo assim, que não haja necessidade de tantas vagas para empregos temporários.

O comerciante Ítalo Golanovski, 59 anos, dono de uma loja de perfumes no centro de Curitiba, já se prepara para a queda nas vendas de Natal deste ano. Ele atribui a queda nas vendas não só à redução no recebimento do 13º salário, mas ao contexto geral da economia no país. “Já vivi outra crise e é normal que agora as vendas caiam. Agora a gente fica na torcida para que a recessão não dure tanto e não seja tão forte como as outras, lá dos anos 90. ”

Segundo a CNC, os segmentos de farmácias e perfumarias e o de artigos de uso pessoal e doméstico serão os únicos a apresentarem aumento nas vendas, com 1% e 2,8% de acréscimo, respectivamente, com relação a 2014. Os demais segmentos caminham para um resultado negativo na principal data comemorativa do varejo brasileiro. As maiores perdas deverão ocorrer nos ramos de móveis e eletrodomésticos (-17,6%) e de livrarias e papelarias (-15,1%). Mesmo diante da perspectiva de queda atingindo seis dos oito principais segmentos do varejo em relação ao Natal do ano passado, a data deverá movimentar R$ 31,76 bilhões neste ano.

Em 2015, os quase 49 milhões de beneficiados pelo 13º deverão receber, juntos, R$ 119,9 bilhões, sendo que no ano passado o valor foi de R$ 122,1 bilhões, esta diminuição de valores acompanha a queda de quase 2% no número de trabalhadores beneficiados. Apesar dessa involução, o pagamento do 13º aos brasileiros, tanto da ativa, quanto aposentados, deve injetar à economia nacional R$ 173 bilhões até o fim do ano. Este valor equivale a 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, sendo 9,5% maior do que havia sido estimado em 2014.

Economia fraca é reflexo do mercado de trabalho

Em 2015, 1,91 milhões de empregados domésticos devem receber o 13°, em um valor médio de R$ 997,00. No ano passado o número de recebedores era maior, 2,12 milhões, porém, a média de salário para cada empregado era inferior à deste ano, R$ 926,86.

Suelly Moreira, 29 anos, não tem mais direito ao 13º salário desde 2012, quando mudou de emprego. Ela afirma que, de lá para cá, tem gastado cada vez menos no Natal e acha que esse será, financeiramente falando, seu pior fim de ano desde que começou a trabalhar. “Cada ano que passa parece que o dinheiro da gente vale menos. Esse ano, para os filhos, vai ser só lembrancinha, presente caro não dá mais. ”

De acordo com o economista André Jambersi, essa redução no número de beneficiados é “um espelho da piora do mercado de trabalho, que vem tendo um acentuado grau de demissões” que possuem carteira assinada. O economista ressalta, ainda, que este aumento no desemprego também tem impacto direto no pagamento do 13º salário aos empregados domésticos. Jambersi explica que a falta de emprego aos trabalhadores que pertencem, principalmente, à classe média causa  diminuição de oportunidades aos trabalhadores domésticos e, por conseqüência, a inevitável queda de beneficiados por este salário extra.

Em 2015, 1,91 milhões de empregados domésticos devem receber o 13°, em um valor médio de R$ 997,00. No ano passado o número de recebedores era maior, 2,12 milhões, porém, a média de salário para cada empregado era inferior à deste ano, R$ 926,86.

O coordenador de relações sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira, ressalta sobre a única categoria em que houve algum crescimento é  a de aposentados e pensionistas. “Se, por um lado, há redução de empregos no setor formal, 900 mil pessoas a mais receberão o benefício por requisitarem sua aposentadoria ou pensão pelo INSS”. A estimativa para este ano é de que 33,62 milhões de aposentados e pensionistas se beneficiem com o pagamento do 13º salário, como dito por Oliveira, 900 mil a mais que em 2014.

Em relação aos empregos temporários, a piora nas expectativas em relação ao faturamento real do setor afeta, naturalmente, de forma negativa a intenção de contratação de trabalhadores temporários. Assim como no volume de vendas, a abertura desse tipo de contrato de trabalho teve sua previsão revisada para baixo por parte da entidade (de -2,3% para -2,9% em relação ao ano anterior). Confirmada essa nova expectativa, entre setembro e novembro o número de vagas temporárias oferecidas pelo varejo em 2015 (138,6 mil) será o menor desde 2012 (135,2 mil postos).

Os segmentos de móveis e eletrodomésticos (-10,7%) e de livrarias e papelarias (-5,7%) deverão liderar a queda na oferta de vagas em 2015. Dentre os oito segmentos avaliados, há perspectiva de aumento de vagas apenas no ramo de farmácias e perfumarias (+1,8%).

 

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