Mulheres na manifestação do 8 de março, em Curitiba. | Foto: Paula Moran
Crescem as campanhas em defesa dos direitos das mulheres

Imprensa e mercado publicitário têm valorizado a luta feminina

Por Paula Moran e Rodrigo Angelucci

A luta das mulheres por igualdade na sociedade têm ganhado cada vez mais visibilidade e espaço. Isso se deve a alguns fatores, como o crescimento da disseminação da informação pela internet, pela mídia alternativa e, também, o aumento da conscientização pela mídia tradicional. Nos últimos dois anos, os números de manifestações em prol da luta por direitos iguais para as mulheres no Brasil, além de terem aumentado, ganharam destaque da mídia e popularizaram o movimento feminista.

Em 2015, a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve como tema a violência contra a mulher, apontando-a como tema de discussão atual, pois o Brasil se classifica como o 5º país em que mais se cometem feminicídios no mundo. No carnaval de 2016, foram realizadas campanhas contra o assédio, abuso e violência, como o #CarnavalSemAssédio e o #AgoraÉQueSãoElas, promovendo discussões para combater o assédio nas redes sociais e ganhando repercussão em todo o país.

No dia 8 de março deste ano, Dia Internacional da Mulher, aconteceu uma greve internacional de mulheres em vários países. Isso fez com que os veículos midiáticos cobrissem o mês de março como o “mês das mulheres”, trazendo programas e matérias especiais para elas. E não só a mídia foi afetada, como também o ramo publicitário. Também no dia 8, a Skol lançou a campanha “Reposter”, em que seis ilustradoras foram convidadas para recriar os antigos pôsteres publicitários da marca em que a figura feminina era explorada, para figuras em que a mulher também está consumindo o produto.

Em um vídeo para a divulgação da campanha, a marca afirma que não concorda mais com os antigos padrões que utilizavam em suas propagandas, mostrando que deixaram para trás a objetificação do corpo feminino e o estereótipo machista que colocava a mulher como submissa.

Foto: Reprodução | Skol

Com mais acesso à informação, mais mulheres estão se identificando com o movimento feminista e reconhecendo que devem lutar por seus direitos. Pautas como igualdade salarial, descriminalização do aborto, direito de ter as mesmas oportunidades que os homens e direito de ter segurança são algumas das propostas.

As militantes Keythe Tavares e Clara Kowalski estavam na manifestação da greve do dia 8 de março. Elas explicam que participar de protestos como os que vêm acontecendo é essencial para ver quantas mulheres estão lutando pela conquista dos mesmos direitos e que elas não estão dispostas a ficar caladas diante de um país com uma cultura machista e discriminadora. “Cinco mil mulheres estavam nas ruas com o mesmo objetivo, e isso traz uma visibilidade enorme”, avalia Keythe.

Elas dizem que manifestações são importantes para demonstrar que as mulheres não estão sozinhas nessa luta, e que juntas podem mudar aspectos da sociedade. “Quando ocupamos esses espaços com milhares de mulheres, estamos dizendo que as coisas não serão mais como antes, que ninguém mais vai ficar calado com a violência misógina. A rua geralmente é muito hostil para nós, mulheres: a gente tem medo o tempo todo. Quando vamos para a rua juntas, ela se torna um palco de luta explícita e gritante para os nossos direitos”, afirma Keythe.

Pessoas têm visão errada sobre movimento, diz militante

Para Clara o feminismo tem mérito nas manifestações, mas muitas pessoas têm receio de conhecer mais sobre o movimento por terem uma visão errada sobre ele e acabam tendo medo de tomar partido. Então, diz ela, é preciso que a conscientização sobre a luta pelos direitos iguais comece na escola, pois crianças precisam entender desde cedo que não é errado tomar partido e que estudar sobre as motivações de determinadas lutas não é ruim.

Para a socióloga Gabriela Viola, o feminismo é uma construção diária e árdua, pois requer uma reflexão sobre a estrutura patriarcal de nossa sociedade. Ela acrescenta que, apesar de as mulheres serem metade da população mundial, ainda são excluídas de diferentes meios culturais, sociais, políticos, econômicos e educacionais.

Viola diz que o ativismo e as manifestações contribuem para o esclarecimento da sociedade. É muito significativo ver as mulheres tomando as ruas, um espaço que foi socialmente atribuído aos homens, falando e fazendo política.

Gabriela também explica que o monopólio midiático sempre representou a imagem da mulher como subalterna e coadjuvante, e agora, está sofrendo uma pressão social sobre a democratização dos meios de comunicação. Já a internet tem um potencial de compartilhamento de informações, debates, trocas de conhecimentos e vivências pessoais. Isso se viu no caso da campanha “hashtag meu primeiro assédio”, que foi utilizada como uma forma de denúncia e encorajamento das vítimas.

Em relação ao movimento feminista atual, Gabriela afirma que existe uma grande onda sobre o feminismo liberal. Ela também diz que está cada vez mais forte a consciência de que não existe um discurso universal, que as opressões atingem as mulheres de maneiras diferentes, de acordo com sua classe, etnia e condição sexual. Ela o vê como algo dialético e diário “sem hora e data marcada”, explica.

 

Empoderamento feminino cresce na internet

Uma das maneiras que as mulheres encontraram para aumentar a conscientização e o alcance da informação foi por meio da criação de páginas, ONG’s e projetos na internet, como é o caso do Think Olga, Empodere Duas Mulheres e o “Vamos Juntas?”. Os canais têm o objetivo de informar as mulheres sobre seus direitos, explicando como se defenderem em caso de violência e ressaltando a importância de se falar sobre ela. Elas propõem solidariedade e empatia para umas com as outras, o que possibilita união e irmandade de alcance nacional e até internacional.

A linguista Marina Hortz explica que essas páginas também possuem caráter político-social de combate às falsas notícias relacionadas ao movimento feminista, e têm viés educativo de esclarecimento das causas, das lutas e, principalmente, dos direitos conquistados historicamente, mantendo as mulheres sempre em alerta pela reivindicação dos mesmos.

Marina vê na internet uma possibilidade de ultrapassar o mundo virtual, pois existem muitas mulheres dispostas a ajudar umas às outras, seja com ajuda psicológica e até possibilitando ajuda financeira por meio de “vaquinhas” online para arrecadações. O ativismo virtual é necessário, mas não é a única forma de se construir a luta.

Em uma pesquisa feita pela reportagem com 1.032 pessoas de todo o país, dentre elas 740 mulheres, cerca de 73% afirmaram terem conhecido o feminismo via Internet. 60% afirmaram terem conhecido mais sobre seus direitos e 67% se consideraram mais empoderadas(os) após terem tido contato com informações de páginas feministas na internet.

Fonte: pesquisa realizada pela reportagem

Em média, 55% acham que a luta pela igualdade e equidade entre os gêneros ganhou mais espaço com a disseminação da informação pelas redes sociais. E 30% acham que é possível combater a violência contra a mulher com a Internet, pois, por meio dela, é possível conscientizar, alertar e auxiliar mais mulheres para que possam conhecer sobre seus direitos e denunciar seus agressores, dando visibilidade ao debate sobre todos os tipos de violência cometidos às mulheres.

Apesar do aumento do alcance da informação possibilitado pela tecnologia, apenas 28% consideram a visibilidade do movimento na internet positiva, pois assim como há informações de conscientização, também há informações que denigrem a imagem do movimento.

A representante da Frente Feminista e da Greve Internacional de Mulheres (8M) de Curitiba, Ana Spreizner, explica a importância da visibilidade do movimento na Internet. “Decidimos criar a página do 8M no Facebook para conseguir divulgar os eventos, não somente do 8 de março, mas também as notícias relacionadas à luta das mulheres.” Ela afirma que a internet é uma ferramenta importante de militância, a partir do momento que ela consegue dar voz às mulheres e expandir o alcance de informações.

Ana explica que o Facebook também proporciona possibilidade de expansão das informações – então, ali, as mulheres postam textos, vídeos e informações que fazem com que elas reflitam acerca da própria condição e das opressões que sofrem. É um importante passo de debate, pois questões como violência e opressões, de alguma forma, são sempre veladas na mídia tradicional e na sociedade. “A partir do momento em que nós temos uma mídia que, de alguma forma, é livre, nós conseguimos ter reconhecimento”, explica Ana.

Ainda é muito difícil afirmar que, pela Internet, as mulheres conseguiram conquistar mais espaço na sociedade. “Elas só conseguem mais espaço a partir do momento em que o ‘ocupar’ sai da teoria e partem para a rua, para ocupação dos espaços políticos e os outros espaços necessários. As mulheres têm que estar presente na academia, nas empresas e em todos os espaços possíveis, para que, de fato, possam ser respeitadas e sejam capazes de mostrar o seu potencial”, diz Ana.

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