Cavaletes e inconvenientes

Cavaletes políticos interferem diretamente em questões visuais e ambientais da cidade. 

 Por  Luciano Schmidt, Ingrid Teles e Brenda Iung

A um mês das eleições, a disputa se acirra e a cidade é tomada por cavaletes políticos. É um momento crítico para que os candidatos se comuniquem com os eleitores, mas é isso que essa publicidade eleitoral promove? As informações presentes nos cavaletes são o nome, o número e a foto do candidato, às vezes acompanhados de uma curta sentença. Além disso, muitas pessoas alegam que eles atrapalham o trânsito de pedestres e motoristas e sujam as ruas.

A proibição de outdoors, showmícios e brindes pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em 2006, deu início a esse tipo de publicidade. A produção se acentuou nas eleições de 2010, de acordo com Velozo Santos. Jornalista, trabalhou como coordenador de campanha de um candidato majoritário nas eleições municipais de 2012, e afirma que os candidatos não se preocupam com os efeitos negativos dos cavaletes.

“Quem não é visto não é lembrado.” Segundo Velozo, essa é a lógica na produção do material de campanha. A repetição em massa da mesma imagem é a estratégia adotada. A elaboração desse material é feita em conjunto com agências de publicidade, que estudam o público alvo e determinam como tentar atingi-lo. É o candidato que dá a última palavra e deve arcar com os custos e a logística necessários para a produção e distribuição da propaganda.

“O problema é que todo esse material, ao invés de informar o eleitor, tem como intenção vender um produto de forma padronizada. A eleição virou venda. E se você escolhe um candidato baseado em sua embalagem, pode acabar se arrependendo”, diz Velozo. “O povo curitibano é muito crítico em relação a esse tipo de propaganda. Curitiba é uma cidade usada como referência em testes de muitas campanhas publicitárias, pois é um público difícil de convencer.”

A lei eleitoral permite a colocação de cavaletes, não fixados, em locais onde não atrapalhem o trânsito de pedestres e motoristas. Na prática, essa atividade fica sujeita ao julgamento daqueles que espalham a propaganda pelas ruas. Há muitos espaços como canteiros e rotatórias tomados por cavaletes, que acabam atrapalhando a visibilidade dos motoristas para fazer manobras e enxergar os outros carros. Outros atrapalham as guias rebaixadas que dão acessibilidade às calçadas. A rejeição das pessoas que circulam pela cidade é evidente. Onde se acumulam os cavaletes, vários estão derrubados, rasgados ou quebrados.

TRE apreende cavaletes

O TRE-PR (Tribunal Regional Eleitoral do Paraná) realizou três operações de apreensão de propaganda irregular na última semana, recolhendo no total mais de 500 cavaletes que permaneceram nas ruas em horário impróprio. A lei possibilita a permanência do material a partir das 6h até as 22h.

De maneira extraoficial, há também uma iniciativa popular, que convida as pessoas a fazerem intervenções artísticas em cavaletes considerados inconvenientes. O objetivo é exibi-los em uma exposição coletiva em praça pública, combinada por Facebook. É o Cavalete Parade, evento que já teve uma edição junto às eleições de 2012 e ocorre em várias cidades do Brasil. Em Curitiba o evento ocorrerá na Boca Maldita, nas tardes dos dias 27 e 28 de Setembro.

Há controvérsias quanto a essas ações alternativas. Não há legislação específica sobre intervenções feitas em propaganda eleitoral. O estudante de direito Guilherme Gabardo, 23, alertou sobre as possíveis consequências legais. “Se um indivíduo danificar um material devidamente homologado pela justiça, pode surtir algum efeito que qualifique o ato como vandalismo. Nesse caso, a pessoa assinará um termo circunstanciado e vai fazer uma transação penal.”

Victor Cortiano, 24, declara: “São poluição visual. É óbvio que são feitos por pessoas que têm dinheiro para bancar essa produção em massa. São mensagens que entram na cabeça das pessoas de forma intrusiva.”

Pra onde vai?

Outra questão grave é quanto à destinação desse material depois das eleições. Não há qualquer informação sobre o tratamento adequado do lixo eleitoral. As lonas, adesivos e até mesmo os potes das tintas látex, usadas na impressão dos materiais, podem ser tratados como resíduos perigosos, e devem ser descartados de maneira específica. “O material vai pro lixo, não é reciclado”, diz Velozo Santos. “Não há preocupação com a sustentabilidade nesse processo. (…) Eu parei de trabalhar naquela campanha porque percebi que ela era muito mais forma do que conteúdo.”

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