O álbum é tão esperado quanto à abertura do mundial e marca o início da contagem regressiva para evento que este ano é sediado no Brasil
(Foto: Manuella Niclewitz)
Colecionares se reúnem em bancas, praças e shoppings da cidade para trocar figurinhas

A Praça da Ucrânia é o maior ponto de encontro aos sábados e reúne famílias inteiras na expectativa de completar o álbum

Por Beatriz Peccin 

A coleção de figurinhas e a montagem de álbuns nunca foi coisa só de criança, mas o álbum Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014™ está movimentando mais pessoas do que se imaginava. A praça da Ucrânia, no bairro do Bigorrilho, por exemplo, agora tem aos sábados uma nova função: ser ponto de encontro de colecionadores de toda a cidade que estão na ânsia de completar o álbum.

O álbum é tão esperado quanto à abertura do mundial e marca o início da contagem regressiva para evento que este ano é sediado no Brasil (Foto: Manuella Niclewitz)

O álbum é tão esperado quanto à abertura do mundial e marca o início da contagem regressiva para evento que este ano é sediado no Brasil
(Foto: Manuella Niclewicz)

No dia quatro de abril foi lançado o álbum da Copa do Mundo em todo o território nacional e, desde então, todo ambiente virou local para as tradicionais trocas de figurinhas. Bares, padarias, livrarias, bancas e até mesmo praças são pontos de encontro para uma pequena multidão de desconhecidos trocarem poucas palavras e muitas figurinhas entre si.

A atividade insere os colecionadores, torcedores e patriotas no espírito do campeonato. Para Marcio Saddock de Sá, de 52 anos, a melhor parte em colecionar é “colar a última figurinha, além das sessões de trocas com as crianças na praça”. Com o álbum já completo, a missão que parecia ter chegado ao fim, agora está na segunda etapa – ajudar os amigos. “Continuo ajudando outros amigos do local onde trabalho para que eles também completem suas coleções”, disse.

A paixão pelo futebol levou-o a colecionar todos os álbuns das copas posteriores, desde o tricampeonato do Brasil na Copa de 1970. “Colecionei de 1970 até hoje. Depois de mais velho, a desculpa sempre era para o meu filho, mas na verdade eu sempre adorei este tipo de coleção e para quem gosta de futebol como eu, tudo a respeito da Copa do Mundo é uma diversão”, explica Saddock. Todavia, o “esporte” de colecionador não se restringe somente a homens e aos mais velhos.

Thaina Geronasso, de 20 anos, também está empenhada em completar o seu primeiro álbum. A estudante de matemática planejou a compra e diz não ter sido algo intuitivo, ela tem um objetivo. “Quando decidi comprar, foi uma atitude pensada, porque se eu comprasse, era para completá-lo e posteriormente guardá-lo. Uma Copa no Brasil é um momento histórico, que provavelmente nunca mais verei. E, depois de completo, irei colocá-lo em uma pasta, junto com as figurinhas restantes, para que no futuro, possa mostrar as pessoas da outra geração como foi o evento sediado no meu país”, completa.

A reportagem também consultou um português radicado nos Estados Unidos para saber como está essa movimentação por lá. Herminio Marcalo, torcedor do Benfica e morador da cidade de New Port, em Massachusetts, é apaixonado pelo Brasil e contou que as figurinhas são vendidas em várias lojas de departamentos, supermercados e farmácias e também que há uma grande movimentação para completar o álbum. Entretanto, o que faz mais sucesso é o álbum on-line disponível no site da FIFA. “Eu mesmo comprei o álbum e as figurinhas há poucas semanas, depois de ter terminado o álbum on-line”, relatou.

TROCAS CONTEMPORÂNEAS

Há grandes grupos nas redes sociais em que os integrantes estão ali exclusivamente para divulgar as figurinhas repetidas, as que faltam e marcar encontros para trocá-las. Não importa a distância ou um eminente perigo de se encontrar com pessoas conhecidas através rede. A necessidade de completar o álbum é maior que isso.

O grupo “Troca de figurinhas em Curitiba e região” na rede social Facebook foi criado assim que o produto foi lançado e há 224 membros, de variadas idades, profissões e de cantos opostos da capital paranaense. Thaina faz parte deste grupo e confessa que para ela finalizar o álbum tem um gostinho diferente, “a melhor parte é a interação, conhecer novas pessoas, conversar sobre futebol”.

Muitas histórias rondam os álbuns e seus colecionadores. Saddock lembrou algumas coisas do passado.  “Quando pequeno, na copa de 1970, troquei a bandeira da Inglaterra (que era muito difícil) com um homem bem mais velho, por 40 figurinhas que eu não tinha. Minha mãe quando soube me deixou de castigo por uma semana, pois eu não deveria ter arrancado a figurinha do álbum. Hoje ainda tenho o álbum e só falta a bandeira da Inglaterra”. Já Thaina contou que “no dia das mães, o almoço em família foi uma troca de figurinhas bastante divertida”.

O sucesso do álbum pode ser atribuído a muitos quesitos: o fato da copa ser no Brasil, a prática que remete a infância, a tecnologia do álbum digital, e os novos cards de figurinhas mais tecnológicos – tudo para aumentar a interação entre o torcedor e o evento. Segundo a Panini, empresa oficial responsável pelo álbum, a versão online é disponibilizado no site da FIFA desde a Copa de 2006 com muito sucesso, mas este ano em particular tiveram altíssima aderência do público brasileiro.  O investimento em tecnologia também abraçou os aplicativos, com o “controle de coleção de cromos de papel”, conquistando ainda mais o público.

REFORÇO DA IDENTIDADE

A correria para completar o álbum, a interação social proporcionada por ele e a quantidade de gente engajada nessa atividade efêmera é explicada pela socióloga e professora Rosita Hummel. “A Copa este ano para os brasileiros é um evento do tipo que reforça a identidade nacional. O álbum, além disso, leva os adultos que fazem a coleção a relembrar a infância e rever os bons tempos em que faziam a coleção de figurinhas. Isso reacende grupos de amigos da infância e da vizinhança, que hoje está mais inerte”, explica.

Há 11 dias do início da Copa, a praça ainda é o refúgio dos colecionadores que não conseguiram completar seus álbuns (Foto: Manuella Niclewicz)

Há 11 dias do início da Copa, a praça ainda é o refúgio dos colecionadores que não conseguiram completar seus álbuns
(Foto: Manuella Niclewicz)

A socióloga também aponta o motivo pelo qual tanta gente das mais variadas idades, profissões e classes sociais realiza a mesma atividade. “O movimento é efêmero, mas é através do álbum que você reforça o que há de prazeroso neste evento fortalecedor da identidade nacional”, conclui a professora.

Para os colecionadores a graça está em correr atrás das figurinhas que faltam, o que é uma atividade bastante divertida e esta grande interação social maximizada pelas redes sociais é uma mudança na tradicional coleção de figurinhas – o que pode assustar alguns mais antigo, mas que certamente é a cereja do bolo para os mais jovens. Thaina relatou a experiência da mãe em um sábado na Praça da Ucrânia em uma reunião de colecionadores. “Minha mãe ficou encantada com a quantidade de pessoas que estavam lá com o mesmo intuito. As pessoas conversam sobre futebol, fazem às trocas, você vê pais com seus filhos pequenos, uma ligação que está cada vez mais difícil, por causa das tecnologias. É uma maneira de interação face to face que vale bastante a pena”, termina.

 

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