Estudantes manifestam em favor da greve (Crédito: Gabriela C. Peratello/Portal Comunicare)
Corte de verbas preocupa estudantes da UFPR

Cerca de 30% do orçamento das universidades federais foi retido pelo governo

Por Carolina Piazzaroli, Gabriela Costamanha, Hannah Siriaki e Vitória Gabardo

Os professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), após assembleia realizada no Centro Politécnico, deflagraram greve docente na segunda semana de agosto. Dessa forma, uniram-se ao movimento nacional, que completou três meses de mobilização no dia 28 do mesmo mês. As principais reivindicações dos professores são melhorias nas condições de trabalho e reajuste salarial.

Na semana seguinte à reunião do corpo docente, estudantes de diversos cursos e campi da UFPR realizaram uma assembleia própria que tomou lugar no Teatro da Reitoria em Curitiba. Lá, eles decretaram greve estudantil com intuito de exigir melhores condições na estrutura da universidade, a manutenção do valor de R$ 1,30 nas refeições do Restaurante Universitário (RU) e a devolução do prédio do Diretório Central dos Estudantes (DCE), fechado desde maio. Os alunos também reivindicam o não corte de bolsas de iniciação científica e de auxílio permanência, que já foram reduzidas em 64,6%, ou seja, 7.109 de 11 mil bolsas, do programa Jovens Talentos 2015, que visa o incentivo à pesquisa. 

Além disso, servidores públicos realizam greves desde o início do ano em todo o país e, recentemente, recusaram a proposta do governo de aumento salarial de cerca de 21% divididos em quatro anos (2016-2019).

Corte cortou verbas de univeridades

Uma das primeiras medidas do segundo mandato do governo Dilma Rousseff (PT) foi retirar cerca de R$ 5,6 bilhões do orçamento dedicado ao Ministério da Educação (MEC). Porém, segundo o Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior (ANDES), o corte já chega a R$ 11 bilhões. No início de março, o MEC anunciou a redução de 1/3 do orçamento previsto para 2015 destinado às universidades públicas. A Associação Nacional Dos Dirigentes Das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) afirmou que cerca de 30% do que era repassado mensalmente às universidades estava sendo retido.

De acordo com o estudante de história e presidente do Centro Acadêmico de História  (CAHIS) da UFPR,  André Cunha, os cortes impostos pelo governo foram aparecendo aos poucos. Segundo ele, um acontecimento que chamou a atenção foi a urgência da Reitoria em reformar o prédio do DCE no início do ano, o que pareceu estranho na época, uma vez que outras áreas da universidade se encontravam em condições piores do que o edifício em questão, tendo necessidade de reformas mais urgentes. Por conta dessa ocorrência, os estudantes perceberam que se tratava de uma estratégia para dificultar a mobilização dos alunos. A previsão da reforma era de um mês, mas o prédio está fechado há quatro meses e nenhuma alteração foi executada.

Depois desse episódio, a redução na verba passou a ser mais evidente, de acordo com Cunha. No curso de História, as bolsas começaram a atrasar com certa frequência, percebia-se a falta de materiais na secretaria e os banheiros foram sendo precarizados, de forma que raramente apresentavam papel higiênico ou sabonete para uso dos alunos. O estudante ainda aponta a má administração da Reitoria como causa da situação. Segundo ele, a gestão atual iniciou várias obras e quase nenhuma foi concluída.

Estudantes sofrem com falta de bolsa

Quanto à assistência estudantil, ou seja, bolsas dedicadas a alunos que necessitam de auxílio financeiro para custeio de moradia e alimentação, Cunha afirma ser um direito do estudante carente. Com o programa de cotas, essa assistência serve para que os alunos que necessitam desse subsídio tenham condições de permanecer na universidade. Porém, esse auxílio, que sempre foi insuficiente, passa a ser ainda menor, e mais difícil de ser obtido, por conta dos cortes. Outra reclamação vinda dos estudantes remete ao descaso com que a Pró Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) trata os acadêmicos quando estes têm dúvidas ou precisam entregar alguma documentação para obterem as bolsas.

Larissa Schultz, que cursa história na UFPR, diz que a falta de reajuste inflacionário faz com que os alunos precisem lidar com valores insuficientes e muitos desses estudantes precisam do auxílio para se manterem em Curitiba, tendo em vista que grande parte dessas pessoas adentraram a universidade por meio de programas de inclusão, que não foram estruturados de forma correta a atender as necessidades do público. Segundo ela, a universidade não pode criminalizar o movimento, considerado pela estudante como um grande passo para reconhecer os problemas e buscar soluções. Larissa acredita que a melhor forma de resolver esses problemas é o diálogo.

A mestranda do programa de pós-graduação de Sociologia da UFPR, Tatiane de Almeida Berdusco, tem uma opinião diferente. Ela defende a legitimidade das reivindicações, mas acredita que o método adotado não é compatível com o momento de crise econômica e política do país. “Antes de criticarmos as mudanças nas bolsas deveríamos repensar a greve como método de pressão. O que se transmite à sociedade com a UFPR parada?”, questiona. Tatiane ainda afirma que uma greve neste momento desestrutura o trabalho docente, desorganiza o calendário e desmotiva professores, alunos e funcionários, e acha que seria possível negociar com o governo sem parar as atividades. “No lugar de uma greve que paralisa e não mobiliza um debate sério com alunos, sociedade e membros da Universidade é urgente. Temos que discutir a universidade pública que queremos, essa capaz de preparar cidadãos competentes para enfrentar o novo Brasil que vivemos”, diz.

PIBID é ameaçado

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O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) tem como proposta aperfeiçoar e valorizar a formação de professores para a educação básica. André Cunha acredita que o PIBID seja um dos melhores programas oferecidos nos cursos de ensino superior, por possibilitar o contato entre os alunos de licenciatura, que estão se preparando para lecionar, com a sala de aula e, ao mesmo tempo, trazer os professores da rede estadual para a universidade. “É uma tarefa em conjunto, e é lamentável que o programa esteja ameaçado”, diz.

Os cortes nesse projeto estão funcionando da seguinte forma: os bolsistas atuais não serão excluídos do programa, mas, caso desistam, não podem ser repostos, uma vez que não serão abertas novas vagas para as bolsas. Essa mudança leva a acreditar que em breve o programa possa ser extinto.

 

Corte ocorre também em outros estados

A UFPR não é a única a sofrer com os cortes efetuados pelo governo no início do ano. Praticamente todas as universidades públicas do país sentem os efeitos da retenção de parte do orçamento.

  • São Paulo: Foram cortadas 73% das verbas destinadas às bolsas de iniciação científica na Universidade de São Paulo (USP). Além disso, os servidores realizam paralisações desde o início do ano, reivindicando melhores salários. Monitores de laboratórios, funcionários da limpeza, do chamado “bandejão”, e da biblioteca continuam em greve, sem previsão para o retorno. Segundo a estudante de fonoaudiologia Jéssica Leite a situação se complica cada vez mais. As aulas de anatomia, por exemplo, estão prejudicadas pela ausência dos monitores, e, com a biblioteca fechada, os alunos precisam procurar outras fontes de estudo. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), a situação é praticamente a mesma. Segundo o estudante Gabriel Brasil, a biblioteca se encontra fechada há mais de três meses.  Na Universidade Federal de São Paulo (UNIFES), o corte no orçamento somado com a falta d’água corre o risco de ter de fechar por alguns dias da semana, além de cortar serviços terceirizados de limpeza e segurança.

 

  • Minas Gerais: Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o corte é de 30 milhões.

 

  • Rio de Janeiro: Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a greve dos professores perdura desde o final de maio. Além disso, o Museu Nacional fechou no início do ano, pela falta de pagamento de serviços terceirizados.

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