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Crítica: um convite ao egoísmo saudável

Em ‘Lulu, Nua e Crua’ entrevista de emprego mal sucedida é estopim para reviravolta

Taís Coutinho Arruda

Atriz Karin Viard protagoniza longa com maestria. Foto: Isabelle Razavet/Arturo Mio.

Atriz Karin Viard protagoniza longa com maestria. Foto: Isabelle Razavet/Arturo Mio.

Quem nunca teve vontade de jogar o celular pela janela, ignorar e-mails, Whats App, notificações do Facebook ou os toques insistentes do telefone? Quem nunca teve vontade de abandonar tudo, dar a partida no carro e dirigir sem destino? É quase isto que faz Lulu (Karin Viard), protagonista do longa ‘Lulu, Nua e Crua’, da diretora Solveig Anspach, após uma entrevista de emprego mal sucedida.

Lulu, que na verdade se chama Lucie, é uma mulher insegura, cuja autoestima foi sendo esmagada ao longo de sua vida. Este traço de sua personalidade é visível desde os primeiros minutos do filme: a moça tem o olhar sempre voltado para o chão, sempre pede desculpas por tudo, coloca-se sempre como última prioridade e tem a voz baixa e contida.

Depois de não conseguir um emprego como secretária e ser ridicularizada pelo marido bruto e controlador por isso, ela “perde” o trem para sua cidade e passa a, literalmente, perambular pela vida: envolve-se com um homem que encontra desfalecido na praia (Bouli Lanners), dorme na rua, viaja de carona e estabelece um relacionamento beirando ao de mãe e filha com uma velha senhora solitária (Claude Gensac), que luta para não perder sua independência. Além disso,

Longa de Solveig Anspach mostra metamorfose da protagonista. Foto:  Isabelle Razavet/Arturo Mio.

Longa de Solveig Anspach mostra metamorfose da protagonista. Foto: Isabelle Razavet/Arturo Mio.

mostra a uma jovem insegura e submissa como ela que a vida é muito maior que o café em ela que trabalha.

Ao longo do enredo, vemos Virard dar à luz a uma nova Lulu: uma que não tem medo de encarar os desafios profundamente nos olhos, de se impor, de nadar nua no mar gelado durante o inverno francês ou de simplesmente dar uma volta. Também notamos o quanto a rebeldia da moça influencia a vida de sua família, que fica desnorteada com a ausência de seu ser figurante e essencial.

‘Lulu, nua e crua’ é um filme envolvente porque provoca. Provoca quem assiste a ousar em pensamento e imaginar “e se eu fizesse o mesmo?”. É muito fácil o público identificar-se com a protagonista, pois ela é a dona de casa comum que nos sorri na propaganda de margarina. Ela é a vizinha dedicada que levanta-se antes de todos para preparar a família para o longo dia que terão pela frente e que é acusada de ser acomodada. Ela é a menina que, desce o nascimento, é adestrada para manter todas as estruturas firmes mas, ao mesmo tempo, não ser notada ou levar crédito por isso. Ela é a amélia que muitos homens ainda desejam.

Apesar da história genial e dos personagens curiosos e bem construídos, o longa de Anspach não consegue fugir do lugar comum dos filmes cujas protagonistas são mulheres: a personagem principal envolvendo-se invariavelmente com um homem, o qual será parte de seu final feliz. No caso desta obra este acontecimento deixa o roteiro levemente truncado, mesmo sendo óbvio. Contudo, Lulu ainda é mais dona de si que a maior parte das personagens mulheres do cinema.

Vale a pena aceitar o convite da diretora de fugir. Mesmo que seja através de Lucie e por pouco mais de uma hora e meia.

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