Apanhador Só realiza show em Curitiba | Foto: Divulgação Apanhador Só
Crowdfunding: ciência não repete sucesso da música

Sites de financiamento coletivo têm taxa reduzida de sucesso em determinadas áreas

Por Bernardo Vasques, Gabriel Witiuk e Pedro Freitas

Embora tenha bastante sucesso em projetos musicais, o financiamento coletivo (crowdfunding) ainda é pouco eficiente para bancar propostas de segmentos como Ciência e Tecnologia, jogos digitais e design. Essas três áreas estão entre as menores taxas de sucesso do Catarse, principal site do gênero, com 31%, 34% e 35% de taxa de sucesso, respectivamente – apenas 20 dos 65 projetos científicos finalizados foram bem-sucedidos.

Um dos fatores que pode ter levado à baixa taxa de sucesso é o alto preço das iniciativas científicas, visto que há muita tecnologia e produtos caros envolvidos. A média de preço de financiamento dos 9 projetos de Ciência e Tecnologia abertos supera R$ 25 mil.

Existem, porém, outros fatores que podem influenciar no sucesso ou fracasso de um crowdfunding: “É preciso ter uma estratégia de divulgação bem coesa e uma demanda de público para aquela ideia. Não adianta uma ideia genial sem público que a apoie. Então, é legal saber antecipadamente quem está disposto a investir na ideia e oferecer recompensas atraentes ao público”, diz o produtor musical da Apanhador Só e responsável pelo projeto bem-sucedido da banda, Tito Lima.

O crowdfunding, como é tecnicamente conhecido, consiste na doação de dinheiro por parte do público consumidor, ou seja, o produtor lança sua campanha em sites especializados em financiamento coletivo, descrevendo sua ideia e apontando a quantia necessária, para que, por determinado tempo, o público possa doar o quanto desejar.

O Catarse, conta com 24 categorias de projetos, totalizando 266 projetos abertos, e, contados os projetos já finalizados, o número dispara para quase 4 mil iniciativas. As categorias vão desde áreas essencialmente culturais como música, literatura, cinema e teatro, até projetos educacionais de áreas como jornalismo e ciência e tecnologia.

Músicos lançam discos financiados pelo público

Na tentativa de ganhar espaço no cenário cultural, artistas independentes de segmentos como música, literatura e cinema têm tido bastante sucesso com o financiamento coletivo. Entre todos os segmentos, aquele que é mais procurado pelos produtores é o da música. Dos 266 projetos ainda em andamento, 33 são musicais, o que representa 12% do total. Além disso, na história do site, já foram iniciados 771 projetos musicais, com 450 deles integralmente financiados, uma taxa de sucesso de 58%, uma das mais altas do site. As iniciativas musicais já movimentaram mais de R$ 7 milhões.

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Em julho, os roqueiros porto-alegrenses da Apanhador Só e os baianos do Vivendo do Ócio realizaram campanhas para a gravação de novo álbum. Os gaúchos buscaram também, por meio do crowdfunding, o financiamento de uma turnê nacional. Ambos os projetos tiveram grande sucesso, alcançando mais do que a quantidade estipulada.

“Projetos musicais tendem a ter mais público ativo, que está indo shows, esperando material novo. Tenho a impressão que o financiamento coletivo virou uma alternativa mais recorrente no mercado musical, o que também contribui para os números serem mais expressivos”, diz Tito Lima.

Muitos produtores oferecem recompensas, que vão de material de divulgação a ingressos para shows, que facilitam esse tipo de iniciativa.

 

 Crowdfunding é visto como alternativa à indústria cultural

 O financiamento coletivo é visto como uma saída viável para que produtores de conteúdo não dependam de grandes financiadores como gravadoras e estúdios e possam produzir material de maneira independente. A popularização dá prática levanta a discussão a respeito da posição da indústria cultural em relação ao crowdfunding – isto é, se a nova tendência do mercado poderia representar alguma ameaça à hegemonia da indústria.

O diretor de criação Igor Bleggi, responsável pelo crowdfunding grupo de teatro curitibano Gufo Coletivo Teatral, aponta que não se dá uma ameaça, mas a possibilidade de coexistência entre os dois meios de financiamento. “A indústria cultural é responsável por toda elaboração, captação, produção, desenvolvimento e divulgação de projetos, e o financiamento coletivo é um canal para capturar verba, por isso pode ser usado inclusive pela indústria cultural”, explica.

Por outro lado, o escritor americano Howard Rheingold, no artigo The Next Social Revolution, defende que as práticas de financiamento coletivo conseguem oferecer uma ameaça real à indústria cultural, que, por sua vez, deve se manter atenta à essas novas práticas para que possa, inclusive, utilizá-la para lucrar. “As verdadeiras inovações não virão dos líderes estabelecidos da indústria, mas das margens, de equipes especiais, empresas iniciantes e mesmo associações amadoras”, escreve.

 

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