Comunidade negra de Curitiba resiste e se fortalece

Movimentos dão visibilidade para população negra da capital paranaense 

Por Talita Souza

Curitiba redescobre suas raízes africanas pouco antes do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. Ações afirmativas trazem representatividade e resgatam uma cultura que foi apagada ao longo do desenvolvimento da cidade. Entre elas, entidades como o Centro Humaitá, movimentos como a Marcha do Orgulho Crespo e pessoas como a nova Miss Curitiba. 

Mais da metade (53,6%) dos brasileiros são negros. O número corresponde a mais de 108 milhões de pessoas em 2014, quando os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já no Paraná, o último Censo revelou que 2.976.844 residentes no estado (28,5% da população) se autodeclara negra. Ainda com base no IBGE, quase um quinto da população de Curitiba se declara parda (16,9%) e 2,8%, preto.

Mesmo assim, o mito da cidade européia ainda permeia o imaginário dos curitibanos. Para o professor de História da África Jair Passos, a capital é preconceituosa. “Quando vemos que a maioria das praças que representam os diversos povos imigrantes estão localizados em pontos privilegiados da cidade, observa-se que o principal  monumento que representa a África fica muito distante. A praça Zumbi dos Palmares, no Pinheirinho, está muito mal localizada e se torna invisível”.

Em contramão, movimentos cada vez mais presentes aqui dão visibilidade ao negro paranaense. São protestos, eventos e mesmo personagens que se envolvem nessa questão.

Autoestima negra

De acordo com a cantora Michele Mara Domingos, ser negra em Curitiba é “ser corajosa pra sair na rua e saber que sempre terá alguém com um olhar preconceituoso pra você”. Segundo ela, os curitibanos insistem em “embranquecer a cidade”. “Vivemos a sombra da cultura dita como européia, mas Curitiba é negra antes de qualquer outra cultura que aqui chegou. Curitiba é preta. Bem preta!”.

Em 2013, a artista foi vítima de preconceito em um supermercado no Centro Cívico, quando funcionários fizeram comentários preconceituosos e riram da sua aparência. Já em 2016, em uma loja localizada na Rua XV de Novembro, ela não pode provar um acessório depois que a dona do estabelecimento disse que seu cabelo era “muito grande” e estragaria o ornamento.

Desde 2016, Michele é organizadora da Marcha do Orgulho Crespo. O movimento nacional busca valorizar a estética afro questionando padrões de beleza. A primeira edição curitibana da marcha aconteceu ano passado, reunindo mais de 500 em uma passeata da Praça Santos Andrade até a Boca Maldita. Uma nova ação está programada para o dia 18 de novembro de 2017.

 

“Sinto que consegui cumprir minha função como miss”

Eleita como a primeira miss negra de Curitiba em 2016, Letícia Costa, tem 21 anos e trabalha como modelo desde os 18. Ela passou por um momento de autoaceitação quando, aos 16 anos, deixou de alisar o cabelo para assumir os fios crespos. Conheça mais sobre essa personalidade no vídeo abaixo:

 

Voz de Curitiba em Paraty

Durante a edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, realizada em julho deste ano, uma senhora de 77 anos chamou atenção ao compartilhar sua história durante uma palestra que contava com a presença da escritora a Conceição Evaristo e do ator Lázaro Ramos.

Neta de escravos, Diva Guimarães veio do interior do Paraná para Curitiba para como professora. Em seu discurso, ela contou que desde os seis anos sofreu com a educação racista em um colégio interno. Diva também lembrou de sua mãe, que se esforçou para garantir a educação dos filhos e criticou o racismo presente na capital do Paraná. “Todo mundo acha que curitiba é cidade europeia de intelectuais. Coisa nenhuma! Vai viver em Curitiba como negro e morador da periferia para vocês tirarem esse encanto”.

 

Curitiba de cor

Com objetivo de desmistificar as raízes culturais brasileiras, o jornalista curitibano Herivelto Oliveira criou o canal de vídeos “Brasil de Cor”. A série de programas é focada em entrevistas com personagens negros de todo o Brasil. Elas são divulgadas em vídeos curtos semanalmente. Conforme Oliveira, a ideia é “dar visibilidade e oportunidade para os negros brasileiros”.

 

Um baile mais que bom

“Criar um espaço de sociabilidade, diversão e identidade”. Esse foi o conceito pensado por Brenda Maria dos Santos para criar o Um Baile Bom, em 2015. Com encontros no São Francisco, a festa que busca afirmar a presença afro-brasileira em Curitiba reúne cerca de 350 pessoas todo mês.

Brenda afirma que “toda a forma como ele é pensado e organizado é direcionado para comunidade negra”. Segundo a idealizadora, esse “é um espaço de incômodo para a capital paranaense, que se coloca como descendente de imigrantes europeus”.

Além de músicas black, como samba, rap e funk, a equipe organizadora, que varia entre 16 a 24 pessoas, é formada inteiramente por profissionais negros. Durante os eventos, empreendedores afrodescendentes comercializam produtos como acessórios, roupas, entre outros.

A coreógrafa Dayane Paixão diz que o baile é um ponto de encontro e acolhimento entre amigos. “O Um Baile Bom enriquece a beleza e o empoderamento, ressaltando os legados de nossa cultura negra”, comenta.

Já para Andressa Ignácio, o reconhecimento da estética africana e o empoderamento feminino são o diferencial entre o baile e outros espaços de entretenimento. A socióloga também atenta para a questão política: “É um local que afirma a valorização afro-brasileira e os sujeitos negros enquanto produtores e consumidores de cultura”.

As reuniões do Um Baile Bom acontecem na Sociedade Operária 13 de maio. Fundada em 1888 por afro-descendentes recém libertos, a associação funcionava como ponto de encontro de ex-escravos em Curitiba e realizava ações de assistência médica, financeira, educacional e social.

Ainda falta consciência

Há quatro anos, Curitiba passa por discussões acerca do dia da Consciência Negra. No ano passado, o tema voltou a ser discutido quando a segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que negou petição da Câmara Municipal de Curitiba para garantir o feriado na cidade.

A proposta foi apresentada pelo ex-vereador Clementino Vieira (PMDB) em 2012. Combate ao racismo foi o argumento utilizado pelo parlamentar No mesmo ano, Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) e Associação Comercial do Paraná (ACP) se posicionaram contra a decisão. Em nota, Edson José Ramon, presidente da ACP na época, alegou que a data “geraria sério e expressivo impacto negativo à atividade econômica e à atração de novos investimentos no município”.

O dia da celebração foi escolhido em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder de um dos maiores quilombos brasileiros, morto em 20 de novembro de 1695, durante em um combate para defender sua comunidade.

Representatividade X oportunidade

O centro Humaita,criado para promover a cultura dos afroparanaense, favorece a representatividade de negros por meio de ações culturais e educativas. Parte da missão do Centro é incentivar a Lei Federal 10.639, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no ensino fundamental e médio em instituições de ensino.

De acordo com o presidente da entidade, Adegmar da Silva, a tentativa de menosprezar a tradição afrodescendente no estado fez com que suas contribuições dos povos africanos aqui fossem apagadas ao longo da história.

Silva afirma que o curitibano precisa conhecer mais das suas origens: “Antes da gente querer olhar pra África que é um continente muito grande, um espaço grande a ser estudado, vamos olhar pra Curitiba, vamos olhar para os afrocuritibanos”. Ele ainda diz que a cultura africana é forte e que faz parte da gênese da nossa capital.

O coordenador de etnias da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), Carlos Hauer, esclarece que, apesar do órgão buscar igualdade na representação de todas as descendências, existe uma preocupação com representantes do continente africano “porque ainda existe toda uma questão de preconceito, mágoas e uma marca da história”.

Hauer acredita que essa cultura precisa ser mostrada. Uma alternativa apontada por ele é a construção de espaços públicos que representam as tradições dos negros na cidade, como a Praça Zumbi dos Palmares, no Pinheirinho, e o Pavilhão Étnico, localizado no Memorial de Curitiba, São Francisco.

História não é de hoje

O professor de História da África Jair Passos relembra a presença de negros em Curitiba desde sua colonização. Segundo o historiador, negros africanos que chegaram à região no século XVII. Já no século XVIII, quando ainda haviam menos de 5 mil pessoas na cidade, eles somavam centenas. No início do século XIX, a população de pretos e pardos em Curitiba era superior a 40%. Hoje, essa porcentagem equivale a 19,7% da população atual.

O especialista entende que, atualmente, os maiores representantes dessa cultura aqui são espaços públicos construídos e apropriados por negros da capital, como a Igreja do Rosário, feita por escravos, e hoje utilizada para celebração de religiões de matriz africana.

Confira no mapa locais de Curitiba mais negros do que você imagina:

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