Especial: Vem, Chuva!

A situação se passa em Curitiba, numa loja de artigos variados na Rua Barão do Cerro Azul, a duas quadras do Shopping Mueller


Texto: Jheniffer Andrade
Fotos: Melvin Quaresma

“Puta merda, ainda é garoa! Acho que ‘num’ vem chuva mesmo, filho.”
O tom de decepção na voz me chama a atenção.
“Quem diabos torce pela chuva em pleno centro de Curitiba?”
, penso. Chego mais perto, quero ouvir o diálogo.
“Ó, moça, não vou levar as vinte, não. Me vê dez só… Acho que hoje, se eu conseguir vender umas cinco já tá bom demais.”
Então descubro que se trata de um homem comprando guarda-chuvas.
Deduzo que sejam para revenda. Tá, é claro que são para revenda.
Uma bela moça japonesa separa as sombrinhas, põe numa sacola e lhe entrega. Ele agradece. Pega a compra e sai com o filho.
Quero saber mais sobre ele. Sobre como deve ser essa coisa de esperar o que quase ninguém quer.
Largo minhas compras e saio em busca do vendedor de guarda-chuvas.

Foto onibus chuva

 

Mas foi só colocar os pés pra fora da loja. A previsão do vendedor de guarda-chuvas foi “por água abaixo”. Perdão pelo trocadilho.
A garoa se transforma em chuva de verdade e meu vizinho de compras provavelmente agradece a São Pedro.
As pessoas começam a se aglomerar debaixo das marquises. Nesse ponto já não sei mais para onde andou o homem que é objeto de minha curiosidade.
Em pouco tempo os gritos se multiplicam.
Diz o velha-guarda, “Ó o guarda-chuva! Quinzão, minha senhora!”
“Mulher bonita ‘nóis’ faz a dez!”, dispara um mais galanteador.
“Guarda chuva, quinze reais!”, um mais prático.
“Óóó o guarda-chuva, meu povo!”, um populista, quem sabe?
É um mundo à parte. Um coral típico dos centrões urbanos.
Mas não são brados costumeiros.
São fenômenos sazonais, que somem ao mesmo passo em que cessam os pingos. Se a chuva nos dá trégua, as vozes também se vão.
Bom, pelo menos a chuva parece que vai perdurar.
“Caramba, eu também torço pela chuva agora”, penso. A curiosidade me faz dependente das gotas. Temo que parem de cair.
Quero conhecer mais sobre o mundo dos vendedores de guarda-chuva.

foto sombrinha

 

“A gente compra na loja dos ‘china’ aí, no atacado. Compramos por cinco reais e vendemos por quanto cada um quiser. Eu vendo por dez, mas tem uns que vendem por doze, quinze… Varia…”
Adilson Silva carrega uns vinte guarda-chuvas consigo.
A quantidade de sombrinhas destoa de seu porte físico nada arrojado .
Ele é magro, bem magro; e alto, muito alto. Dizem que é a combinação perfeita pra um “desengonçado”. E, aqui, a definição se faz precisa.
Adilson é bastante desengonçado.
Um desengonçado vendedor com vinte sombrinhas dependuradas no antebraço.
Diariamente, Adilson vem de São José dos Pinhais para a capital. Diz que vender em São José só dá dor de cabeça. Quem faz a fiscalização por lá é a Guarda Municipal e o buraco é mais em baixo. Em Curitiba, quem fiscaliza é um grupo da prefeitura. “É mais ‘susse’*”, diz.
Adilson diz ter 33 anos. Mas corrige pra 28.
“Trinta e trê… Quer dizer, vinte e oito”
A distância considerável entre as idades, somada à sua aparência de “pra lá dos 30”, me faz pensar na possibilidade de que Adilson não queira que eu saiba quem ele realmente é. Talvez Adilson sequer seja Adilson — nome apresentado com consideráveis traços de desconfiança de sua parte.
A desconfiança, aliás, estava sempre presente no semblante do vendedor.
Adilson, ou não, o rapaz parece apaixonado pelas vendas de sombrinhas.
Aliás, sombrinhas e DVDs, até porque ““não é todo dia que chove né, ‘fia?’”

*Expressão referente à palavra “sossegado”. Atípica em algumas regiões do Brasil.

foto senhor

Imagem ilustrativa. Nenhum dos vendedores de guarda-chuva toparam ser fotografados. A prática dos vendedores ambulantes é ilegal.

 

“O que surge no momento ‘nóis’ vai fazendo. Vende na rua, no boca a boca”
O alagoano Paulo César veio conhecer Curitiba há três anos.
Nunca retornou a Maceió. Diz que a capital paranaense é boa pra trabalhar.
Diferentemente de Adilson, Paulo César não carrega uma grande quantidade de guarda-chuvas. São só cinco, contados.
A desconfiança parece característica compartilhada entre os vendedores. Penso que talvez seja a presença maciça de fiscais pela área. Uma Kombi da fiscalização da prefeitura está a uma quadra da conversa.
Pelo menos sei que Paulo César não é Paulo César. O nome é fictício. A idade também é ocultada por detrás do semblante receoso.
“Será que tenho cara de fiscal disfarçada, alguma coisa assim?”, me vem à cabeça.
Bom, pelo menos no anonimato, talvez Paulo César me conte mais sobre seu ofício e satisfaça um pouco mais do meu interesse sobre seu mundo.
Previsão furada. Paulo César não é de muito papo.
Diz apenas que vai vendendo o que aparece, sejam guarda-chuvas ou utensílios domésticos. É de tudo um pouco, de acordo com as oportunidades.
O apreço por aproveitar as oportunidades, aliás, é quase sintetizado pelo Paulo. “É como dizem, ‘a oportunidade faz’… ou ‘alguma coisa faz a oportunidade…’, como é? Ah, vocês sabem, é importante aproveitar as oportunidades, entendeu?”
Paulo César diz que precisa ir. A Kombi vinha se aproximando. “Tenho que rodar, tenho que rodar” e sai andando pela tangente.

foto criança

Imagem ilustrativa. Nenhum dos vendedores de guarda-chuva toparam ser fotografados. A prática dos vendedores ambulantes é ilegal.

 

A chuva diminui. Os gritos já são raros.
Até então, apenas dois vendedores de guarda-chuva quiseram papo comigo. Alguns dizem que não dá pra conversar no momento, outros sequer dão umfeedback sobre a recusa.
Acho justo. Com uma carga horária tão pouco flexível, perder alguns minutos jogando conversa fora não parece boa ideia.
Mas, tudo bem. Sigo o caminho que faria normalmente. Desde que saí da lojinha, percorri até a Praça Tiradentes e agora já descia a Rua XV no sentido da Praça Osório.
Atravesso a Rua Ébano Pereira. Quando chego à calçada oposta, ouço gritos vindos de trás. Três homens cercam e detêm um quarto elemento. Todos param para assistir.

foto briga

“Quando chego à calçada oposta, ouço gritos vindo de trás. Três homens cercam e detêm um quarto elemento. Todos param para assistir.”

 

“Devem ter flagrado alguém praticando furtos”, deduzo.
Eu, que nem de longe quero assistir a mais uma apresentação de “justiça com as próprias mãos”, quase prossigo meu rumo normalmente. Quase.
Percebo que ali, cercado, é um vendedor de guarda-chuvas.
Os três homens querem levar suas mercadorias. São fiscais da prefeitura e levam cinco sombrinhas apreendidas.
A confusão se desfaz e o homem sai caminhando no sentido contrário ao meu rumo. Claro, mudo meu trajeto e sigo atrás dele.

foto senhor 2

Imagem ilustrativa. Nenhum dos vendedores de guarda-chuva toparam ser fotografados. A prática dos vendedores ambulantes é ilegal

 

“Sou um cara de 67 anos e preciso correr atrás. Não sou aposentado e nem quero ser”
Ele não parece desconfiado. Apesar de, até então, todos os vendedores parecerem bastante receosos ao serem abordados, Cláudio é confiante.
E acho que o Cláudio é Cláudio mesmo. “Meu nome é Cláudio de Lima Silveira” foi o que disse ao se apresentar.
No início da conversa, muitas reclamações. Nosso papo toma um ar de denúncia ao passo que o vendedor expõe suas raivas contra os fiscais.
“Tem fiscal que tem até lojinha e revende as coisas lá. Tomam nossas mercadorias assim, à força, sem respeito nenhum. É uma vergonha.”
Compreendo. Ao meu ver, a ação foi, de fato, truculenta — tanto que chamou a atenção de dezenas de transeuntes no momento. Uma força desnecessária. Puxo a conversa para um tom mais leve. Cláudio me acompanha.
O sorriso, com poucos dentes, é extremamente simpático. Cláudio é acolhedor. Ouve minhas perguntas como se ouvisse a música mais agradável do mundo.
A cada ponto de interrogação, um sorriso. E uma resposta atenciosa.
“E você trabalha com o quê além dos guarda-chuvas?”, questiono, já afetada pelas histórias anteriores.
“Ah, meu ramo é só chuva mesmo. (Risos). Também vendo capa de chuva em jogo de futebol, shows”, responde.
Ele também conta que já trabalhou com pintura, mas um problema de vista o impossilitou de continuar. Agora é só a chuva. Se chove, é alegria. Se passa, é melhor voltar pro quarto. “Quarto” porque Cláudio conta que mora em uma pensão no centro. Parte do pouco dinheiro que ganha é destinado para o aluguel.
Cláudio parece feliz. Agora também estou. Apesar de não ter encontrado o homem que despertou minha curiosidade, encontrei histórias de quem vive a esperar pelo que poucos querem. É a espera pela adversidade, pelos desprevenidos.
Agora é só garoa.
Nos despedimos. Vejo Cláudio prosseguir a passos acelerados. Talvez seja a adrenalina do susto ainda correndo. Talvez sempre ande assim, não sei. Ou, quem sabe, é um indício de que a chuva está perto de acabar. Cinematograficamente, prefiro acreditar na última opção.

Some o Cláudio. Fade out. O já quase inaudível som dos pingos cessa. Fim. Essa parte foi só na minha cabeça mesmo.

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