Fim da exigência do extintor ABC causa prejuízos

Decisão preocupa lojas e empresas e também afeta motoristas

Por Fabíola Junghans, Gabriel Vitti e Yasmin Soares

A decisão do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) de facultar o uso de extintores de incêndio em automóveis no Brasil está afetando empresas e lojas do ramo. A medida, publicada no Diário Oficial da União, foi aprovada no dia 18 de setembro, dias antes do extintor tipo ABC se tornar obrigatório em todos os veículos do país, o que estava previsto para o início do mês de outubro.

Nos postos de combustíveis, o impacto da não obrigatoriedade do extintor já é percebido. Segundo o funcionário Elves Santos Oliveira, que trabalha em um posto de São José dos Pinhais, a procura pela mercadoria está baixa e continua caindo consideravelmente. O funcionário afirma que, após o anúncio da obrigatoriedade do extintor ABC, o estabelecimento registrava cerca de uma venda do produto por dia, cenário oposto ao atual, quando poucos clientes procuram o produto para aproveitar o menor preço.

A baixa procura pelo produto também tem afetado Rosangela Ferreira, proprietária da AutoFer, loja de auto peças na região metropolitana de Curitiba.  No início do ano, o estabelecimento chegou a vender cerca de 20 unidades de extintores por semana, registrando até falta de mercadoria. Nos últimos meses, porém, a procura já se encontrava em torno de cinco unidades por semana, e hoje é rara a venda de um único produto.

Mesmo com a queda de quase 90% das vendas, a proprietária observa que o preço de compra dos distribuidores já está menor, o que permite repassar esse valor aos clientes. “Nós devolvemos os produtos que havíamos comprado um dia antes da lei, nem ficamos com eles. O movimento está praticamente zerado”.

É o que também afirma o administrador da JS Extintores, Jair Louzano Filho. De acordo com ele, nem mesmo a diminuição dos preços tem contribuído para aumentar as vendas. “Talvez algumas empresas queiram arriscar abaixando os preços, já que, para não perder os produtos, irão vendê-los. Porém, vão vender para quem?”.

Para o sócio-proprietário da Extinpel, José Vicente Negreiros César, a demissão de funcionários é a maior consequência da nova medida. Apenas na fábrica, localizada em Santo Antônio da Platina, no norte do Paraná, já foram demitidos 66 colaboradores, o que, segundo César, deve gerar prejuízos não apenas à empresa, mas também ao governo federal, devido aos impostos e taxas do seguro-desemprego. Com a queda nas vendas, a produção de extintores já se encontra paralisada.

De acordo com o proprietário, o estoque da fábrica não deve ficar lotado, pois há um controle de produção que impede a fabricação de grandes quantidades do produto. Mesmo assim, os depósitos das lojas e distribuidoras devem continuar cheios, o que as impedirá de comprar novos produtos, gerando prejuízo à indústria. César ainda afirma que a partir do ano que vem, as fábricas já não conseguirão vender as mercadorias fabricadas devido à lei que obriga os extintores a terem validade de cinco anos no ato da venda.

 Consumidores também são afetados

Para os motoristas que haviam comprado o extintor antes da nova resolução, o prejuízo maior foi o financeiro. A engenheira agrônoma Elma Romanó, 56, comprou o extintor por conta da obrigatoriedade, mas, segundo ela, já estava indignada após ler em algumas reportagens que os extintores não estavam funcionando devidamente. “O extintor deve ser um item obrigatório no carro, desde que cumpram com as suas funções e objetivo”

A engenheira também acredita que é errado o governo estabelecer um modelo como obrigatório sem averiguar que o uso do dispositivo realmente é necessário. Após o prejuízo de R$ 120, ela afirma que vai pesquisar qual modelo é mais útil para utilizar em seu veículo.

Contran explica medida

Em nota oficial, o presidente do Contran, Alberto Angerami, declarou que a nova resolução foi adotada após a realização de encontros com o Corpo de Bombeiros e representantes de fábricas e empresas automobilísticas. Além disso, a decisão é baseada em testes realizados pelo próprio conselho que constatou que as novas tecnologias presentes nos automóveis, como o corte de combustível em colisões, apresentam maior segurança contra incêndios. Apesar disso, o extintor tipo ABC continua sendo obrigatório em veículos que transportem comercialmente passageiros e cargas, como ônibus e caminhões.

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