Museu intensifica ações aos 75 anos do Holocausto

Projeto resgata histórias de familiares e sobreviventes do Holocausto no Paraná

Por Ana Lucy Fantin, Gabriel Callegari e Gabriella Bacinelo

O Museu do Holocausto de Curitiba, primeiro do gênero no país, está com uma campanha em curso para resgate de histórias que incluem também fotos, documentos e depoimentos. O projeto é desenvolvido porque, neste ano, o Holocasuto, também conhecido como Shoá, completa 75 anos. “O foco principal é ajudar as famílias a contarem suas histórias, abrirem suas gavetas”, diz o diretor do museu, Carlos Reiss.

Este acontecimento histórico, durante a 2ª Guerra Mundial, foi responsável pela morte de  milhares de pessoas, principalmente judeus. Algumas vítimas sobreviveram e imigraram para vários países, incluindo o Brasil. Para o diretor, o Holocausto não é uma história de milhões de pessoas; mas, sim, milhões de histórias, diferentes umas das outras. “É fundamental resgatarmos o máximo delas e as aproximarmos das novas gerações, causando empatia, trazendo lições e trabalhando valores, principalmente o da vida”.

A estudante de Arquitetura e Urbanismo Caroline Bueno Klassmann, que já visitou o Museu, conta que decidiu conhecer o espaço para ver de perto as histórias sobre o episódio. “O Holocausto é um dos acontecimentos históricos que mais me interessam. Ao mesmo tempo, ler ou assistir documentários sobre o assunto não me trazia a precisão de tudo o que tinha acontecido”. A estudante ainda cita que o museu lhe proporcionou um choque de realidade. “A ambientação do museu te transporta pra um lugar muito perto daqueles que sofreram”.

Já o estudante de Arquitetura e Urbanismo Thiago Guidolin de Oliveira conta que visitou o museu após passar pela rua e ver a edificação cheia de grades, sempre fechadas e com muitas câmeras de segurança. Oliveira relata que o que mais lhe agradou na visita foi a disposição dos espaços. “É tudo muito organizado. O local transmite uma percepção de incomodação e um ambiente gelado”. Para ele, é de extrema importância preservar a memória dos sobreviventes e familiares, por meio do museu.

Segundo o sociólogo Samuel Vidilli, a história e a preservação têm este papel: tornar vivo o que o homem de ontem fez. “O ser humano, no seu afã de fazer a justiça, comete as maiores atrocidades. O Holocausto é apenas mais uma evidência do absurdo que podemos fazer em nome de uma ideia”. O sociólogo, ainda, diz que o Holocausto deve ser um fator a mais para que o mundo valorize a paz e una-se por um mundo mais tolerante.

Sobreviventes também vieram ao Paraná

Segundo o diretor do Museu do Holocausto, Carlos Reiss, alguns milhares de sobreviventes vieram ao Brasil. Ele afirma, porém, que existe grande dificuldade de se estabelecer um número exato, pois o principal problema é que eles chegaram em um período de quase 40 anos, entre o início dos anos 1930 e meados de 1970.

No país, as capitais do Rio de Janeiro e São Paulo foram as que receberam a maior parte dos sobreviventes. O motivo é que a maioria dessas pessoas desembarcaram nos portos de Santos e Rio de Janeiro. Contudo, muitos deles reconstruíram as vidas em outras cidades, como Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Brasília e também Curitiba. Na capital paranaense, segundo o diretor, foram catalogados mais de 100 sobreviventes, e 11 deles ainda estão vivos, vivendo na capital e em cidades no interior do estado, como Rolândia e Ponta Grossa.

Diretor conta história da avó

Neto de sobreviventes do Holocausto, o diretor do museu, Carlos Reiss, conta que seus quatro avós foram liberados em campos de concentração nazistas e que perderam praticamente toda a família. No Museu, quando recebe os visitantes, ele normalmente conta a história de sua avó paterna, Sala Borowiak, nascida em Lodz, na Polônia, em 1924. Confira o relato:

 

Sala (ao centro) com os pais e irmãos. / Acervo pessoal

Sala era a filha caçula de Lajzer Borowiak, serralheiro, e de Ruchla Malkies, que tinham mais um casal de filhos. Ela tinha 14 anos quando viu os alemães invadirem Lodz e obrigarem os judeus a se fecharem num gueto. O irmão, a irmã e o noivo fugiram para a Rússia e nunca mais houve notícias.  Sendo assim, passou a morar com os pais em um pequeno aparamento. Logo começaram as deportações para campos de extermínio. Em fevereiro de 1944, seu pai morreu.  Sala,  juntamente com sua mãe, se mudou para o alto de um prédio.

Sem conseguir aguentar a pressão de viverem escondidas, Sala e a mãe decidiram se entregar aos soldados. No dia seguinte foram enviadas a Auschwitz onde Ruchla foi morta em um câmara d gás e Sala foi salva por uma enfermeira tcheca. Posteriormente, foi remanejada a Bergen Belsen, na Alemanha, onde morou por três meses, até ser mandada a outro campo.

Um dia Sala percebeu o lugar sem soldados e fugiu. Ela retornou a sua cidade natal na esperança de reencontrar sua família e sem sucesso, conheceu Michal, o único sobrevivente de uma família com pais, irmãos, esposa e uma filha de cinco anos chamada Ester.

Sala e Michal viajaram ao campo de refugiados de Landsberg, onde casaram-se. O esposo recebeu o contato de sua prima Malka, que vivia no Brasil e assim, o casal viajou para o país e se estabeleceu em Belo Horizonte. Em fevereiro de 1949 nasceu seu primeiro filho e logo teve outros dois, gêmeos. Michal faleceu anos depois sem nunca ter se recuperado da morte da filha. Sala criou os filhos, casou-se e novamente e ficou viúva, antes de falecer em 1994. Além dos filhos, teve cinco netos e um bisneto.”

Sala, já no Brasil. / Acervo pessoal

Apesar relato, Reiss destaca que seu trabalho no Museu do Holocausto de Curitiba não está diretamente relacionado com o fato de ter avós sobreviventes. “Existe um grande trabalho em transformar o Holocausto num episódio que faz parte da memória coletiva de todo o mundo, algo universal. O foco da transmissão do Holocausto é fazer com que todas as pessoas sintam parte dessas histórias, não apenas as famílias”.

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