O valor dos sebos na era da digitalização

A acessibilidade de conteúdos na internet versus a paixão pelo livro e pelos sebos

Natália Moraes

Há 20 anos era preciso recorrer a uma enciclopédia para fazer um trabalho ou uma pesquisa. A digitalização de informações fez com que essa prática se erradicasse. Artigos, teses, estudos e livros estão a um clique de distância. Há tanto conteúdo na Web que muitas pessoas ficam perdidas e acabam não lendo nada. É o que revela a pesquisa Retrato da Leitura no Brasil, em dados divulgados em 2013. O número de leitores reduziu de 55% para 50% entre 2007 e 2012. A conseqüência direta disso é a diminuição da demanda por livros físicos.

Como vive hoje o mercado de livros em um país onde os dados são tão preocupantes? Jaime Pera, proprietário do Sebo Papirus, em Curitiba, diz que a educação brasileira é bastante precária. “Não é preciso nem comparar nossa educação com a européia. Chile, Argentina, Uruguai e em outros países sul-americanos, os jovens são muito mais incentivados a ler. O jovem brasileiro lê por obrigação, não por prazer”. Para provar seu ponto de vista, ele revela que a maior procura é por livros de faculdade e cursos.

Com um acervo de cerca de 40 mil exemplares, Pera conta que apesar dos índices, o fluxo de livros é constante. “Os livros entram e saem toda hora. O único problema é que às vezes um livro bastante requerido chega no dia e já sai no outro. Não tem como repor, não há estoque”. O sebo também vende seus livros pela loja virtual. Apesar da comodidade de comprar sem sair de casa, o proprietário do sebo diz que a saída da loja física e da loja virtual é praticamente a mesma. “Alguns meses uma vende mais, a outra menos, é alternado”. Em uma perspectiva à longo prazo, ele acredita que pela falta de incentivo dos jovens à leitura, a digitalização pode se sobressair ao físico.

A preferência pelo físico

“Gosto de ter em mãos os livros que já li. Por motivos estéticos e por consultas futuras. Por questões financeiras, o sebo é a melhor opção”, afirma o estudante Fabio Bueno, de 20 anos, que faz parte de uma pequena parcela de jovens que apreciam a literatura. Bueno acredita que os sebos, livrarias e bibliotecas têm um valor diferente, mas são todas importantes.

Marcos Souza, 42, freqüenta sebos desde a juventude. É um amante do ambiente e dos livros. “O sebo nos oferece experiências únicas e raras, como encontrar um livro com uma dedicatória, um ex libridi ou anotações do antigo proprietário do livro”. Ele ainda afirma que a loja física é essencial para quem quer conhecer novos títulos. “Não dá pra explorar, tocar, e conhecer o livro virtualmente. Essas coisas só o livro físico e um lugar próprio para essa troca de conhecimentos pode proporcionar”, conclui.

 

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