Dia do batismo dos filhos de Toni e David | Crédito: Acervo pessoal
Papa parabeniza casal homossexual por batismo em Curitiba

Carta do Papa à casal homoafetivo repercute internacionalmente e revela abertura da igreja

Por Talita Laurino

Um casal homoafetivo de Curitiba recebeu felicitações do Papa Francisco pelo batismo de seus três filhos adotivos, após enviar uma carta de agradecimento ao Vaticano, em agosto. A atitude inesperada da Igreja repercutiu no mundo todo e levantou a discussão sobre o acolhimento de lésbicas, gays, bissexuais, e trans (LGBT) em instituições religiosas.

Em abril deste ano, Toni Reis e seu companheiro, o inglês David Harrad, decidiram dar um passo além na luta pelos direitos de casais homoafetivos: o batismo dos três filhos adotivos. “Eles estavam sendo questionados pela sua religião e não sabiam o que responder, então trouxemos a discussão para dentro de casa e eles escolheram a Igreja Católica”, comenta o militante. O processo para a cerimônia, no entanto, não foi fácil.

A família não precisou adotar nenhuma das medidas, pois recebeu o apoio da Catedral de Curitiba, no centro da cidade, após um diálogo entre Toni e o arcebispo brasileiro Dom Antônio Peruzzo. No dia 23 de abril, Aly Reis, 16 anos; e Jéssica  Reis, 14 anos; e Filipe Reis, 12 anos, receberam o batismo.

Em 7 de agosto, veio uma conquista ainda mais simbólica: a benção do Papa Francisco por meio de uma carta direto do assessor do Vaticano. “Felicidades, invocando para sua família a abundância das graças divinas…”, dizia a carta. As palavras do religioso foram assinadas pelo Pontífice e vieram como resposta à Reis pelo texto de gratidão que enviou alguns meses antes pelo acolhimento de seus filhos na igreja.

 

Notícia repercute internacionalmente e divide opiniões

A notícia, no entanto, não foi celebrada por todos. Divulgada por meios de comunicação nacionais e internacionais, a atitude do Papa recebeu críticas de alguns internautas.

O casal recebeu comentários no Facebook de todas as partes do mundo, e lamentou a hostilidade nas palavras de alguns fiéis da América Latina, que utilizaram várias vezes, segundo Toni Reis, o adjetivo “aberração”. Já em países como Áustria e Estados Unidos houve mais manifestações de admiração e respeito.

Uma mulher ouvida pela reportagem e que preferiu não se identificar disse que, para ela, apenas casais heterossexuais têm o direito ao matrimônio, porém não é contra a filhos de casais gays serem batizados nas igrejas.

Já o motorista Anderson Silva relatou que é contra o batismo, pois “[o batismo] só é aceito a partir do momento que ela tem conhecimento da verdade e a aceita de livre e espontânea vontade”. Além disso, para ele, a igreja e seu líder não podem sucumbir à Lei criada por Deus e o Papa está apenas as eliminando para conseguir a popularidade com os não-religiosos: “Creio na palavra de Deus e em seus mandamentos, respeito todos devem ter, cada um tem o livre-arbítrio que Ele nos deixou, mas aceitar o pecado como algo comum os verdadeiros seguidores de Cristo não aceitam. Mas respeitam”.

 

Arquidiocese de Curitiba comenta a carta

Em nota de esclarecimento, a Arquidiocese de Curitiba comentou a carta enviada ao casal. A instituição frisa que a doutrina da Igreja sobre o casamento não mudou. “O matrimônio cristão somente pode ocorrer entre um homem e uma mulher, que licitamente formam uma família”.

Mais adiante no documento, a entidade declara que isso não significa que a Igreja possa discriminar alguém devido a orientação sexual – dessa forma a comunidade LGBT tem o direito de batizar seus filhos desde que os eduquem nas normas cristãs: “Por esse motivo, nossa arquidiocese permitiu o batizado aos filhos do referido casal homoafetivo”.

O texto ainda reforça que a carta se trata de uma resposta cordial e não uma aprovação à união estável do casal e que não foi escrita pelo Papa Francisco; mas, sim, por um assessor. A nota também salienta que o Vaticano tem o costume de dar retorno às mensagens que recebe.

 

Atitude do Papa fomenta debate

Reis conta que o pedido de batismo foi negado por quatro instituições na cidade de Curitiba, o que segundo Gisele Schimitd, advogada do Grupo Dignidade, é proibido. Ela revela que, por lei, qualquer instituição, seja religiosa ou não, é proibida de negar a prestação de serviços a uma pessoa devido à orientação sexual. “O artigo 5º da constituição proíbe qualquer discriminação por cor, raça, sexualidade, idade ou etnia. Se você for à igreja e te negarem o batismo ou casamento, você pode abrir um processo contra ela.”

Gisele conta que, se, mesmo com o diálogo, o serviço for negado, é possível entrar com um processo na Defensoria Pública ou até mandado de segurança para garantir a prestação do serviço.

De acordo com o teólogo Sérgio Baro existem alguns trechos bíblicos que embasam esse pensamento contra a inclusão homossexual na Instituição católica. Ele destaca dois:

  • Gênesis 1:27,28 “E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Além disso, Deus os abençoou e Deus lhes disse: ‘Tenham filhos e tornem-se muitos; encham e dominem a terra”.
  • Levítico 18:22: “Não tenha relações sexuais com um homem, assim como se costuma ter com uma mulher. É um ato detestável”.

Baro acrescenta que, apesar de existir uma catequese que condena a relação entre dois sexos, não há nenhuma passagem que pregue o ódio. “A fé não pode sucumbir os direitos humanos”. A discussão, no entanto, aprofunda-se ainda mais quando o assunto volta-se aos dogmas cristãos.

O atual Papa já declarou que estes são imutáveis, revelando que a Igreja permanecerá contra o ato homossexual, uma vez que o considera pecado. “ A grande mudança dessa gestão é que reconhece que afastar o pecador da Igreja não faz sentido; afinal, ele é o que mais precisa de acolhimento”.

Essa abertura ao diálogo do catolicismo com seus fiéis tem se tornado marca registrada do pontificado de Francisco, que, de acordo com a teóloga e Irmã Raquel de Fátima Colet, é um comportamento previsto no próprio Evangelho. “Desde sua origem, a Igreja vive um contínuo processo de atualização, é permanentemente novidade e move ao novo. O Concílio Vaticano II (1962-1965) fala dos ‘sinais dos tempos’ como um apelo propositivo à renovação da Igreja, em escuta e discernimento do que Deus tem a falar pela realidade do mundo moderno”.

Ela enfatiza, entretanto, que isso não é sinônimo de descarte ou relativização dos princípios que sustentam a identidade e a missão eclesial.

 

Veja o histórico da relação da igreja com os homossexuais

Na Grécia Antiga e em outros povoados de religião politeísta, o homem sentia-se superior a mulher de tal forma que o amor era compartilhado somente entre eles, tornando a homossexualidade e as orgias atitudes comuns. Com a chegada dos livros sagrados, Alcorão e Bíblia, o Velho Testamento trouxe valores e dogmas muito rigorosos e claros à história da humanidade, entre eles a ideia de família, a qual consistia em um conceito restrito a um casal formado pela união entre o homem e a mulher. Essas Escrituras Hebraicas tornaram dois valores essenciais: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como ama a si mesmo, mas a sociedade da época não considerava válido esses princípios àqueles que praticavam atos homossexuais.

Durante a Idade Média, a Igreja adotou um comportamento ainda mais rígido diante desse grupo, uma vez que o Papa dividia o governo das nações com os imperadores, o que impactava diretamente a moral da época. Em 1231, o Santo Padre Gregório instituiu ao Tribunal do Santo Ofício o direito de combate às mazelas, levando a fogueira todos aqueles que tivessem sua homossexualidade comprovada.

A Idade Moderna, época de grandes revoluções que apelavam por liberdade, igualdade e fraternidade – valores da Revolução Francesa – começou a distanciar o Estado da Igreja, o que parecia um ambiente mais favorável para transformações culturais a respeito de alguns grupos minoritários, como as mulheres e os homossexuais. Os princípios religiosos, no entanto, ainda influenciavam muito o comportamento social, inclusive o de grandes pensadores iluministas formadores de opinião, como Montesquieu e Focault. Ambos enxergavam o ato sodomita um pecado grave, ao lado do estupro e do incesto.

Atualmente, uma trajetória que caminha para a abertura ao diálogo entre a Igreja e a comunidade LGBT se solidifica, colocando em pauta visões sobre o assunto de todas as épocas históricas, comenta o historiador Guilherme Almeida. “Antigamente, as pessoas podiam viver na sua cabana e se comunicar e se expressar não era tão fácil, agora fazer sua voz ser ouvida é um processo muito mais comum”, explica ele sobre a importância da mídia na veiculação de diferentes opiniões, que permitem a defesa de classes menos favorecidas como a dos homossexuais.

O sociólogo Valnei Francisco de França explica que isso é herança do movimento hippie, que visava o amor livre e sem preconceito. “Esse momento serviu para dar uma visibilidade aos problemas e, principalmente, a uma articulação conjunta, pois todos são discriminados e sofrem a segregação e suas violências”, explica. Ele também comenta que a aparição em massa dos indivíduos homoafetivos se deve ao surgimento da aids, época em que muitos grupos de apoio  foram criados para conscientizar a população.

 

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