Projeto urbanístico pretende reabrir rios de Curitiba

Estudo tem como foco a sustentabilidade para a cidade contemporânea

 Por Eduardo Martinesco

Repensar a cidade e a forma como é tratada a natureza no meio urbano passou de ser algo necessário para urgente. A situação atual dos rios que cortam a capital paranaense é resultado da falta de tratamento dado aos dejetos que, segundo especialistas, começa desde a década de 1970 e se estende até os dias de hoje. Para o arquiteto e urbanista Thiago Augustus, a canalização dos rios que passam por Curitiba como o rio Belém, foi causada por uma questão sanitária, “era um esgoto a céu aberto, criando doenças para a população e então fecharam tudo com asfalto. É a cultura de colocar o problema embaixo do tapete”.

Mas para repensar a cidade do futuro é preciso ir além da mera crítica, é necessário encontrar o diálogo com diversas esferas da sociedade, colocando em cheque costumes e culturas e projetar a cidade para as pessoas. Pensando nisso, o escritório Solo Arquitetos realizou para a Expo 17 – Arquitetura para Curitiba, o projeto de reabertura dos rios canalizados em áreas específicas da cidade. O trabalho foi de seis meses e contou com uma equipe composta por estudantes de todas as principais faculdades de arquitetura de Curitiba.

Área central da capital em projeto da Solo Arquitetos com área para lazer e espaço cultural

O foco inicial do projeto é o de separar o que é água proveniente da chuva para o que é água de esgoto. Hoje, de acordo com o estudante de arquitetura e urbanismo que também assina o projeto, Franco Luiz Faust, esta divisão não é feita. Porém, o objetivo mais visível aos olhos da população, caso o estudo fosse concretizado, é o da reabertura do rio Ivo e rio Belém em pontos de muito movimento como nas ruas, Vicente Machado e Mariano Torres, respectivamente.

A escolha pela abertura do rio na altura da Mariano Torres é por questão de identidade. Os arquitetos justificam o local por estar na área central e por ser um dos acesso principais para quem chega à capital. Por isso, as formas planejadas para usar este espaço são variadas. O caminho próximo ao teatro Guaíra, foi pensado para atender demandas culturais como espaços livres para feiras e shows. Nesta mesma parte do projeto, é onde iniciam as áreas reservadas para o esporte. O estaleiro de canoagem fica próximo ao Passeio Público, bem como o muro para escalada e piscina. No caminho inverso, em direção a rodoferroviária, é imaginado uma parte para contemplação com plantações e arquibancadas. “Já que é uma área mais urbanizada, a gente sentiu a necessidade de colocar uma área verde”, conta o arquiteto Thiago Augustus.

O projeto ainda teve o auxílio de um engenheiro que, de acordo com os arquitetos, diz ser possível a reabertura dos rios. “A tecnologia existe, é uma questão de planejamento, de trabalho em conjunto com equipes multidisciplinares para chegar numa solução viável que caiba no financeiro”, explica.

Repercussão inusitada

O alcance que o projeto teve foi algo inesperado para os integrantes da Solo Arquitetos. Segundo Faust, o retorno da população chegou a ser engraçado: “teve pessoas que achavam que o projeto já ia ser construído”, comenta. Mas a reação, principalmente pelas redes sociais, para Thiago Augustus, foi mais positiva do que negativa. “Com certeza seria preciso uma conscientização da população que estaria no entorno desses rios abertos e mesmo com todos os benefícios [do projeto] sempre vai ter gente que não vai gostar”, diz Faust. Órgãos da prefeitura não comentaram o projeto da Solo e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) não se envolveu no estudo mas acredita ser uma alternativa interessante.

O ceticismo da população é recorrente. Viviane Carvalho, empresária, passa diariamente pela rua Mariano Torres e não acredita que o projeto venha a se concretizar “é uma área muito urbanizada, muito habitada, é difícil retroceder”, comenta. E mesmo que o projeto saia do papel, a sua preocupação é com o trânsito: “pode ficar impraticável, não pode só se pensar na natureza mas também na rotina de quem passa por lá”, avalia Viviane. Já a estudante de psicologia Vittoria Amaral, que frequenta a rua Vicente Machado, diz-se animada com a iniciativa: “seria um momento único de proporcionar um lazer diferenciado em contato com a natureza, não temos nada desse padrão na cidade”, comenta.

Gabriel Zem Schneider, arquiteto integrante do projeto, menciona a sustentabilidade de realizar um empreendimento como este. Para ele, qualquer método de construção tem um quesito não sustentável. É o preço que a natureza paga por viver no planeta. Mas afirma que o papel dos arquitetos: “é sempre tentar amenizar o impacto das construções no meio ambiente com a pluralidade de possibilidades.” E é nisso que os arquitetos e estudantes que projetaram a reabertura de rios de Curitiba concordam entre si: a cidade contemporânea é o resultado da diversidade de pessoas, modais de transporte e da busca pelo equilíbrio entre cidade e meio ambiente.

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