Projetos buscam frear descarte de alimentos

Brasil joga cerca de 14,96 ton de alimentos no lixo a cada ano

Por Mariana Balan

Vinte toneladas por dia. A meta parece ambiciosa, mas é essa a quantidade que o projeto Slow Food Pró-Vita, que atua na unidade de Curitiba das Centrais de Abastecimento (Ceasa), quer resgatar de alimentos que seriam descartados por não serem considerados “bonitos” o suficiente para o consumidor.

Ceasa Curitiba

Frutas, legumes e verduras descartados na Ceasa de Curitiba

(foto: Mariana Balan)

A iniciativa surgiu em 2014, quando foi realizado na capital paranaense o primeiro Festival Disco Xepa. Idealizado pela rede jovem do movimento Slow Food no mundo todo, o evento foi criado com o objetivo de aumentar a conscientização a respeito do consumo responsável de alimentos. Na cidade, o Disco Xepa aconteceu na cozinha industrial da Ceasa e lá foram realizados diversos workshops de gastronomia, que ensinaram os participantes a preparar pratos somente com alimentos que seriam descartados. Oficinas de separação de lixo e de compostagem – a reciclagem do lixo orgânico – também foram ministradas.

Da ocasião, João Alceu dos Santos, líder do movimento Slow Food no Paraná, teve a ideia de criar um projeto que atuasse diretamente na Ceasa, com a possibilidade de coletar milhares de hortifrúti que poderiam ir para o lixo só por não estarem visualmente atraentes, mas que continuavam tão saborosos e nutritivos quanto um vegetal digno de gôndola de supermercado chique. Assim nasceu o Slow Food Pró-Vita, projeto vinculado à associação internacional sem fins lucrativos Slow Food, que tem como princípio básico o prazer da alimentação, priorizando ingredientes artesanais, produzidos com respeito ao meio-ambiente e às pessoas envolvidas no processo.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aponta que aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente no mundo. Em termos de custo, a conta fecha na casa dos R$ 2,3 trilhões. O Brasil, segundo a entidade, está no top 10 do desperdício, jogando fora, por ano, cerca de 30% do que é produzido por aqui.

Na Ceasa da capital paranaense, Santos estima que de 30 a 40 toneladas de hortifrúti sejam descartadas diariamente. A quantidade salva pelo Slow Food Pró-Vita é difícil de ser mensurada com exatidão, mas há dias em que a recuperação chega a 12 toneladas. A meta, no entanto, são as 20 mencionadas no início da matéria. O Banco de Alimentos da própria Ceasa na cidade consegue recuperar outras 5,2 toneladas por dia, em média, segundo o gerente da iniciativa, Gilmar Pavelski. O Banco de Alimentos coleta produtos não comercializados pelos atacadistas e produtores rurais das unidades da Ceasa no estado, destinando-os a instituições sem fins lucrativos.

Desperdício no Brasil (Infográfico: Mariana Balan)

Desperdício no Brasil (Infográfico: Mariana Balan)

Apesar disso, basta uma rápida visita à Ceasa de Curitiba para se deparar com o descarte. Uma passada de olhar já capta montinhos de tomates, laranjas, maços de alface e couve descartados, para a alegria dos pombos que rondam o local. O problema, de acordo com o líder do movimento Slow Food no estado, é muito mais de logística do que de vontade. Não faltam famílias e instituições interessadas em recolher os alimentos, o problema é que muitas não têm como se deslocar até a Ceasa, que fica na Linha Verde, na altura do bairro Tatuquara, para buscar os produtos. Santos, porém, faz uma ressalva.

“O maior desperdício não está na Ceasa, mas sim em nossos lares. É da cultura do brasileiro descartar alimentos. Nosso objetivo maior é combater o desperdício humano”, afirma.

 

De ceia de Natal a almoço para o prefeito

Ainda que haja muito a melhorar, o Slow Food Pró-Vita segue a todo vapor, encaminhando os alimentos salvos para associações de moradores, hospitais, igrejas e comunidades que se encontram em situação de vulnerabilidade social.

“Até 2014, a Ceasa de Curitiba atendia 30 pessoas por mês. Após nossa intervenção, o número de beneficiados chega a 120 mil”, conta João Alceu dos Santos, líder do movimento.

Além de destinar os alimentos a essas instituições, muitas ações foram realizadas dentro da própria Ceasa, nas cozinhas industriais da central e do Sindicato dos Permissionários em Centrais de Abastecimento de Alimentos (Sindaruc), organização dos proprietários de boxes da central. Em 2014, por exemplo, o Slow Food Pró-Vita se uniu com diversos chefs de restaurantes curitibanos para servir um almoço natalino que beneficiou 800 pessoas das comunidades lindeiras à Ceasa e participantes de programas sociais em instituições na região do Tatuquara. Moradores de rua concentrados no Passeio Público também receberam alimentos.

Movimento é intenso na Ceasa de Curitiba (Imagem: Mariana Balan)

Movimento é intenso na Ceasa de Curitiba

(Foto: Mariana Balan)

No ano seguinte, o movimento organizou o Arraiá Gastronômico, evento que durou quatro dias e teve como objetivo orientar os participantes a respeito da importância da manipulação adequada dos alimentos a fim de evitar o desperdício. Quem compareceu pode aprender receitas como pão de casca de abóbora, bolo de casca de banana e moqueca com cascas e talos de legumes.

Já em 2017, quem compareceu à Ceasa para um verdadeiro banquete foi a comitiva do prefeito de Curitiba, Rafael Greca. Na ocasião, a comunidade empresarial das regiões do Pinheirinho, Bairro Novo, Tatuquara e Cidade Industrial foi recebida na central para um churrasco com acompanhamentos preparados com alimentos que iriam para o lixo.

Tomates rasteiros são descartados na Ceasa de Curitiba (Foto: Mariana Balan)

Tomates rasteiros são descartados na Ceasa de Curitiba

(Foto: Mariana Balan)

A respeito dos voluntários, Santos diz que o Slow Food Pró-Vita está de braços abertos para receber quem se interessar pelo projeto. “Não distinguimos ninguém. Quem quer aprender, vem. Quem quer ensinar, também”. #ficaadica

Comida mais que visível

Insight similar ao de Santos teve a advogada Daniela Leite ao visitar a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), uma das maiores centrais de abastecimento do país, localizada na capital paulista. Ao se deparar com pilhas de alimentos para descarte, Daniela ficou tão chocada com a situação que chegou a redigir um anteprojeto de lei para regular o destino de alimentos que perderam o valor comercial mas que ainda são próprios para o consumo.

O então vereador paulistano Ricardo Young (Rede) embarcou na ideia e apresentou o projeto em 2015. O texto acabou vetado no ano seguinte pelo prefeito da cidade à época, Fernando Haddad (PT), sob a justificativa de que a fiscalização acerca do desperdício era inviável. Isso não quer dizer, contudo, que a visita de Daniela ao Ceagesp não tenha rendido outros frutos.

O choque do desperdício –  na comida que via sendo descartada, Daniela conta que enxergava os rostos das pessoas famintas – fez com que ela também montasse, ao lado dos sócios e amigos Flávia Vendramin e Sergio Ignacio, o Comida Invisível, que tem como intuito conscientizar pessoas, empresas e instituições sobre o descarte de alimentos ainda bons para o consumo, por meio de palestras, workshops e outras ações.

Nos cursos, são ensinados passos que vão desde o planejamento das compras a receitas que utilizam toda a fruta ou legume, passando pelo modo correto de armazenar a comida. Tudo para aproveitar de forma integral os alimentos. No Facebook da iniciativa também é possível encontrar dicas valiosas.

O próximo passo é colocar nas ruas um food truck que, em seu menu, vai contar com pratos que exploram toda a potencialidade dos ingredientes, que virão de doações do Ceagesp e de supermercados parceiros do projeto. O lucro será aplicado em novas campanhas de conscientização sobre o desperdício.

 

Combate ao desperdício pelo mundo

No Brasil, comercializar as chamadas “sobras limpas” – alimentos produzidos e não distribuídos – e até mesmo produtos que já passaram do prazo de validade, mas que ainda poderiam ser consumidos, pode fazer o fornecedor parar na Justiça, sendo responsabilizado civilmente e até criminalmente. Em outros países, porém, com legislação mais branda, é possível encontrar iniciativas nesse sentido.

Uma delas é o The Real Junk Food Project. Rede mundial de restaurantes que serve apenas pratos feitos com ingredientes que iriam para o lixo, o projeto nasceu no Reino Unido, mas já conta com lojas na França, Alemanha e na Austrália. No ano passado, eles também inauguraram o primeiro mercado de sobras na terra da rainha. Instalada em um galpão na cidade de Pudsey, na Inglaterra, a loja recebe 10 toneladas por dia de comida que seriam desperdiçadas por restaurantes, lanchonetes e supermercados.

No site da iniciativa eles explicam que são recolhidos produtos que já passaram do prazo de validade, mas que “cheirando, experimentando, inspecionando” é possível verificar se ainda estão aptos para o consumo. Tanto os cafés quanto o mercado funcionam no estilo “pague quanto puder” e a ideia é que sejam frequentados por qualquer cidadão, não apenas por aqueles que passam necessidade.

Já na Dinamarca estabelecimento similar foi inaugurado no início de 2016. Hoje, o Wefood conta com dois mercados em Copenhague, capital do país, que vendem exclusivamente alimentos vencidos. Nas gôndolas há frutas, vegetais, pães, congelados e até carnes, com preços até 50% mais em conta do que em lojas “tradicionais”.

Os lucros obtidos com as vendas dos produtos, que vêm de outros mercados dinamarqueses, são destinados a projetos que combatem a pobreza ao redor do mundo. Os funcionários, por sua vez, trabalham de forma voluntária.

 

Receita

Quando se cozinha com vegetais, é muito comum jogar no lixo partes como talos e cascas, por acreditar que eles podem “estragar” ou conferir ao prato um gosto esquisito. O que muitos não sabem é que muitos desses itens são repletos de nutrientes e podem render saborosas receitas à parte. Confira como preparar um caldo de legumes – que pode servir como base para molhos, risotos e sopas – usando somente sobras:

(Infográfico: Mariana Balan)

(Infográfico: Mariana Balan)

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