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Crítica: Suzanne

Katell Quillévéré engana quem acha que o fim de seu filme será previsível

Mariana Benevides

Suzanne (à esquerda) e Maria (direita) são irmãs e melhores amigas

‘Suzanne’ conta os dramas de uma família à partir da perspectiva da protagonista homônima e de como suas escolhas afetaram o curso da vida de seu pai e sua irmã. O filme já coleciona quatro prêmios e sete nomeações em diferentes festivais, com passagem na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É uma história que revela, por mais clichê que soe, que podemos facilmente deixar de lado a racionalidade quando embebidos pelo amor.

Caminhoneiro e viúvo, Nicolas Merevsky (François Damiens) é pai e mãe para suas filhas, Suzanne (Sara Forestier) e Maria (Adèle Haenel). Nicolas batalha para dar atenção e carinho às duas em meio a suas viagens para sustentar o lar. O ator François Damiens nos passa perfeitamente a imagem de um pai dedicado e real: ama, decepciona-se, briga e perdoa. Já Maria é provavelmente o personagem mais tocante da produção que, com amor incondicional, sempre acoberta a irmã, mesmo diante de todos seus erros.

Os dramas de Suzanne começam quando a personagem tem sua adolescência roubada pela maternidade. Com o crescimento de Charlie (Timothé Vom Dorp, quando pequeno), vemos uma apática e sem vida Suzanne, mãe solteira em um emprego de secretária que despreza. A atriz Sara Frostier sustenta uma das sequências mais interessantes do filme, em que a protagonista, com o filho nos braços, observa a irmã dançar sua juventude dentro de um bar. Seus olhos estão cheios d’água, e podemos pela primeira vez interpretar uma real emoção de Suzanne em sua forma adulta. Ela percebe o quanto perdeu e perderá ao abdicar sua juventude ao filho, e enxergamos uma faísca que indica sua futura rebeldia.

Quando através de um amigo de Maria, Suzanne conhece o ladrãozinho Julian e fica viciada em uma promessa de amor bandido,  a produção cinematográfica de Katell Quillévéré parece por um instante previsível. A personagem some e deixa tudo para trás: Maria, o pai, o filho. Vemos em pequenas sequências o decorrer e as dificuldades desses dois anos em que Suzanne desaparece, onde seu pai luta para criar Charlie. Quando a personagem ressurge, no entanto, o roteiro que parecia às vezes beirar ao raso, na verdade surpreende.

O crescimento da protagonista não é só temporal, o amadurecimento de Suzanne vai se tornando bem definido ao decorrer das diferentes etapas de sua vida, e Quillévéré conta essa trajetória de maneira intensa. Ensina que nossos erros não nos afetam exclusivamente, e que para se viver em paz consigo mesmo, é necessário eventualmente aceitar as consequências do passado.

Vale a pena assistir.

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