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Curitiba celebra a diversidade com concurso de miss transexual

Cidade voltou a sediar o Miss Curitiba Trans

Por Lucas Pereira de Souza, Maria Carolina Oliveira e Mariana Balan

Nadando contra a maré do conservadorismo e do preconceito, há eventos em Curitiba que buscam promover a diversidade e a inclusão. Um deles é o Miss Curitiba Trans, que, após um hiato de cinco anos, voltou a acontecer na cidade. Idealizado por Carla Amaral, uma das fundadoras do Transgrupo Marcela Prado, ONG que realiza ações voltadas para a saúde e cidadania de transexuais e travestis na cidade, o concurso chegou a sua sexta edição em 2015. Confira a galeria de imagens e um vídeo do evento no decorrer da matéria.

Em uma das capitais do país que mais mata travestis e transexuais no mundo (aproximadamente cem por ano, segundo a ONG Transgender Europe), a noite que coroou a Miss Curitiba Trans 2015 foi de glamour e muita emoção. No evento, que aconteceu no Espaço Cult, 16 candidatas, de diversas idades e vindas de várias localidades, concorriam a um prêmio de R$2 mil em dinheiro, tratamentos estéticos e assessoria jurídica no processo de alteração do nome de batismo para o nome social, além, é claro, da coroa e do título.

Entre as concorrentes, o relato mais comum era de que o concurso seria um divisor de águas em suas vidas. A salgadeira Mariana Antunes, 26 anos, por exemplo, contou que o Miss Trans lhe abriu muitas portas – ela chegou a ser convidada para concorrer a um cargo de vereadora em Matinhos, cidade onde mora, nas eleições do ano que vem.

Com três entradas no palco, o concurso durou aproximadamente quatro horas. Na primeira, todas as candidatas desfilaram com jeans e camiseta básica, enquanto na segunda o desfile foi de traje de banho. No fim, as candidatas apareceram com roupas de gala e responderam a perguntas dos jurados.

Quem saiu coroada foi a curitibana Patrícia Veiga, 20 anos. Já a 1ª Princesa foi Nallanda Bioshe, 28 anos, e a 2ª, Alicia Krüger, 21 anos. Ostentando a faixa de Miss Curitiba Trans 2015, Patrícia deixou seu recado: “Eu quero levar o sonho de todas [as transexuais] e mostrar para todo mundo que nós somos seres humanos com sentimentos”, e foi ovacionada.

 

“Precisamos de mais mulheres trans em cima dos palcos e menos nos caixões”

Um dos discursos mais emocionantes da noite foi proferido pela 2ª Princesa do concurso, Alicia Krüger. Questionada pelos jurados sobre como exerceria sua influência como miss, caso fosse coroada, Alicia inflamou a plateia ao afirmar que a luta por uma população tão estigmatizada deve ser contínua. “Curitiba é a cidade que mais procura diversão sexual com transexuais e é também a capital que mais mata [transexuais] no país. Temos que usar essa visibilidade para diminuir o preconceito e a criminalidade. Precisamos de mais mulheres trans em cima dos palcos e menos nos caixões”.

 

A um passo de ser mãe

Além de realizar um sonho ao participar do concurso, muitas candidatas também contaram que estão realizando desejos em suas vidas privadas. A professora Lana de Cássia Ferreira, 31 anos, que vive na região dos Campos Gerais, relatou que depois de realizar a cirurgia de redesignação sexual, alterar seu nome social e se casar, o próximo passo a ser dado é adotar uma criança. “Eu e meu marido já estamos na fila de espera, super ansiosos”, disse.

 

Conheça a ONG que idealizou o Miss Trans

Com o intuito de lutar contra a exclusão de transexuais na sociedade e valorizar a beleza (interior e exterior) da mulher transexual, o Miss Curitiba Trans foi criado.

Pioneiro no Brasil, o concurso nasceu no seio do Transgrupo Marcela Prado, instituição sem fins econômicos fundada em 2004 por Carla Amaral. O grupo busca promover a cidadania, saúde, segurança e informações sobre direitos humanos e políticas públicas voltadas a travestis e transexuais em Curitiba. O nome é uma homenagem a uma travesti nordestina soropositiva que migrou para a capital paranaense na década de 1980 e foi uma lutadora da causa LGBT. Marcela faleceu na primeira metade dos anos 2000.

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