Movimento protesta contra suspensão do feriado da Consciência Negra em Curitiba

Evento criado no Facebook convida curitibanos a não comprar nada no dia 20 de novembro

Taís Arruda

No dia 20 de novembro de 1695, morria Zumbi dos Palmares, icônica figura histórica da luta pela igualdade racial no Brasil. Na década de 60, a data foi transformada no Dia da Consciência Negra, um feriado para promover a reflexão sobre a posição do negro na sociedade brasileira.

Em Curitiba, a lei 14.224/2013, promulgada pela Câmara Municipal, tornou o dia feriado dentro de uma política de combate ao racismo. Consequentemente, instituições de ensino e comércio deveriam fechar as portas.

No entanto, após ação iniciada pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) e pela Associação Comercial do Paraná (ACP) no Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), o recesso foi derrubado na capital paranaense com o argumento de que o feriado prejudicaria a arrecadação dos comerciantes locais e do governo, o que gerou revolta em movimentos sociais.

As curitibanas Meg Thai e Tânia Mandarino estão entre os indignados pela suspensão. Para protestar, as duas criaram o movimento

Movimento foi criado para protestar contra a suspensão do Dia da Consciência Negra em Curitiba. Arte: Taís Arryda

Movimento foi criado para protestar contra a suspensão do Dia da Consciência Negra em Curitiba. Arte: Taís Arruda

Dia 20 de novembro, não compre nada em Curitiba!”, para reunir pessoas que também discordam da decisão do Tribunal de Justiça.

As organizadoras afirmam que sentiram a necessidade de protestar pois viram a medida como algo que coloca o dinheiro acima da luta pela igualdade no país. “Na manhã em que soubemos que a ACP e o SINDUSCON/PR tinham obtido do TJ/PR uma liminar suspendendo o feriado do dia 20 de novembro por conta de “prejuízos financeiros” que poderiam afligir os comerciantes e, também, o município e o estado por conta da não arrecadação neste dia, inúmeras pessoas da minha rede de contatos, assim como nós, imediatamente se sentiram agredidas pela forma como o dinheiro pode estar acima de tudo em nossa cidade e, assim, passamos a nos manifestar, dando vazão a este sentimento”, contam.

Ambas complementam dizendo que o Dia da Consciência Negra é fundamental para que todos se lembrem que não apenas os brancos protagonizaram a abolição da escravidão no Brasil. “Tudo que era oferecido nas escolas, como educação às crianças sobre o tema, era a ideia de uma princesa branca, trajando rica vestimenta de sinhazinha, que, por caridade e bondade, um dia se sentou a beira de sua escrivaninha, e com uma pena muito bonita assinou um papel “libertando” os escravos”, falam.

“É um feriado mais ou menos parecido com o 1º de maio, o Dia do Trabalhador, ou seja, é um dia de Luta e não de descanso. Mais do que um Dia de Consciência Negra, é um dia de consciência humana”, finalizam.

Recepção

Thai e Mandarino ainda afirmam que, no Facebook, um grande volume de pessoas aderiram à causa (até o fechamento desta reportagem, 2576 usuários haviam confirmado presença no evento). Entretanto, foi necessário deletar mensagens de “racismo velado” da página e postar um aviso para alertar que publicações de tal cunho não seriam toleradas.

OUTRA VISÃO

O estudante Andrey Rodrigues é negro e tem uma visão diferente sobre a suspensão do feriado. Para o acadêmico de Arquitetura e Urbanismo, a data nunca foi levada a sério, portanto, sua transformação em dia útil não é grave. “Me sinto indiferente quanto ao cancelamento, afinal, os negros não eram beneficiados em nada com este feriado. Era apenas uma data levada ao comodismo, apenas um dia de descanso para todos”, diz Rodrigues.

Além disso, ele vê o protesto de forma negativa. “Creio que o protesto seja supérfluo, assim como o feriado, que só faz expor o negro rotulado como desprovido de condições e marcado pela escravidão”, opina.

Fechado para comentários.