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Santo Daime é usado no combate à depêndencia química

Método envolve religião católica, plantas amazônicas e xamãs peruanos

Por Luiz Mourão e Stella Prado

O chá da ayahuasca utilizado no ritual do Santo Daime estimula no indivíduo uma imersão na própria história e tem sido usado para ajudar dependentes químicos a encontrar as raízes do vício. Orientadores xamânicos e centros espirituais se espalham pelo Brasil comprometendo-se a orientar o uso do chá.

A utilização da ayahuasca no Brasil é permitida desde 2010, se utilizada para fins religiosos. Baseada nessa premissa, a psicóloga Cristina Vidovix decidiu abandonar as atividades usuais e hoje em dia atua como conselheira xamânica sob o nome de “Mama Occlo”. Ela conta que teve na cidade de Cajamarca, norte do Peru, uma visão sobre uma maldição que explica o consumo da cocaína na sociedade moderna, e desde então, se dedica à disseminação do Santo Daime.

A maldição, segundo descreve a daimista, começou quando o explorador Francisco Pizarro deu início à dizimação do povo inca em 1532. Após ter sido convidado para um encontro com o imperador nativo, Atahualpa ele assassinou seus guardas e o tornou prisioneiro. Após isso, o plantio da folha da coca passou a receber um novo tipo de “rezo”.

Antes do acontecimento, os vegetais eram rezados de duas formas, ambas com boas intenções. Uma para a utilização da população e outra para o uso dos xamãs. Cristina conta que o terceiro rezo deu início à maldição. “Há 450 anos se planta a folha de coca, rezando para que o homem branco, ao consumi-la destrua sua família o seu lar e aquilo que estrutura o conjunto de crenças do homem”, explica.

Cristina diz que realizar o ritual do Santo Daime é uma forma de pagamento ao recebimento da dádiva que expandiu seus horizontes. “Hoje nos vemos o consumo dos subprodutos da coca que é plantada com esse intuito, reproduzindo na sociedade atual o que Pizarro submeteu aquele povo. Eu tenho a missão de servir a ayahuasca, para expandir consciência e quebrar esse ciclo.

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Conheça a ayahuasca

A ayahuasca é uma bebida proveniente da combinação de diversos cipós. Ela produz um efeito enteógeno, ou seja, alterador de consciência, que de acordo com os seguidores de sua crença possibilitam uma abertura espiritual que estreita os laços do ser humano com o seu transcendente. A utilização desta substância para fins religiosos através do sincretismo com a religião católica deu origem ao Santo Daime, uma manifestação religiosa que vem sendo objeto de estudo e de interesse de pessoas de todo o Brasil.

Bianca Lima frequenta o Centro Espiritual Céu da Nova Vida, localizado em São José dos Pinhais, onde se realiza um trabalho de recuperação para dependentes químicos. Os praticantes são os responsáveis por todo o processo de preparação do chá, desde o plantio até a manipulação final que culmina na ingestão. Os trabalhos são divididos entre trabalhos de concentração, realizados nos dias 15 e 30 de cada e de cura, praticados em um domingo do mês.

A consumação dos trabalhos do Daime para fins de cura tem diferenças mais profundas do que utilização de um alterador de consciência como método. “A bebida atua ativando o deus que habita na pessoa, possibilitando que se enxergue os próprios defeitos, erros e as coisas que tiram o foco”, afirma Bianca. Ela vê grande diferença na maneira com que os dois procedimentos posicionam o paciente perante a sociedade. “Na comunidade terapêutica, eles adormecem o que há dentro do dependente, através de remédios e esquecimento, não se trabalha os motivos da dor. Nós trabalhamos dentro de um centro urbano, buscando a causa dos problemas e mantendo os pacientes inseridos na sociedade”.

Quem garante o sucesso do método é Carlos Roberto Cândido Junior, que foi usuário de crack por 15 anos e, desde que passou a frequentar o centro espiritual, está longe das drogas.”Eu estava em situação deplorável, após  meu primeiro contato com a ayahuasca, eu entrei em contato comigo mesmo, com o sagrado que habita dentro de mim”, explica.

No ritual praticado por Cristina Vidovix, o autoconhecimento foi colocado como o grande propulsor das mudanças causadas pelo chá na vida dos indivíduos. Essa declaração é comprovada na prática pelo recuperado. “Passei a pensar nas coisas que eu fazia, adquirindo responsabilidades e compromisso. O Santo Daime é uma forma de fazer contato com você mesmo, de olhar dentro do seu olho e perceber o que voce é e o que voce esta fazendo”, atesta o recuperado.

Estudos realizados pela USP afirmam que a efetividade do tratamento varia de acordo com o indivíduo. Por isso a utilização da bebida como medicamento não é permitida no país, segundo a agência reguladora, não existem comprovações cientificas sobre a legitimidade do processo.

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